sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

voltei à blogosfera



www.eueleeamaria.blogspot.com

e obrigado a todos os que continuam a visitar este espaço, pode ser que um dia eu volte a trabalhar de bandeja na mão.




sábado, 10 de setembro de 2011

um ano sem trabalhar dá nisto.

pois que ontem fui aos pastéis de belém e fiquei assustada com o seguinte diálogo entre uma turista brasileira e um empregado:
"meu marido foi no banheiro mas para já eu quero uma água..."
"ah veja mas é tudo de uma vez que eu não vou andar para trás e para a frente."

pois é, ao que tudo indica há uma nova forma de atender a malta. e eu já só tenho um mês para aprendê-la.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

então e hoje o que é que vai ser?

ontem fez 4 anos que me tornei empregada de mesa.
hoje faz 4 anos que decidi que não queria fazer outra coisa.
e ainda hoje é um amor incompreendido.

sábado, 16 de abril de 2011

e finalmente: os patrões.

algumas pessoas perguntam-me porque é que eu nunca escrevo sobre os meus patrões. então, mas não se está mesmo a ver? é porque eles são pessoas espectaculares, impecáveis, do melhor que há. além disso, eles sabem que eu tenho este blogue. quando eu comecei a trabalhar para eles, já há 3 anos, percebi que toda a gente lhes tinha muito respeitinho. mas assim um respeitinho um bocado aldrabado, diga-se. os meus colegas diziam-me que sempre que eu visse um deles a chegar tinha de me manter ocupada. então o esquema era este: sempre que um deles entrava no restaurante cada um dos empregados agarrava-se ao que podia. um atirava-se aos guardanapos, outro ajeitava os talheres em todas as mesas, outro metia-se a polir copos polidos. eu sentia sempre que ficava no meio da sala a olhar para o ar, até que com o tempo também me habituei a enganá-los (não é bem enganar, vá, que eu trabalhava muito sim. juro que sim. acho que até merecia um aumentozinho) bem depressa. e até quando eu estava mesmo ocupada a trabalhar os meus colegas passavam por mim e diziam baixinho: isso mesmo, ‘tás a disfarçar bem! ah, ‘tá bem. e depois havia ainda aquela coisa de ninguém os querer atender. quando eles chegavam para jantar olhávamos sempre de esguelha uns para os outros, enquanto pensávamos quem seria a vítima. a tarefa calhava sempre aos recém-chegados. na maioria das vezes faziam asneiras no pedido ou partiam copos por causa da pressão da coisa. alguns tremiam dos pés à cabeça e nem conseguiam articular duas palavritas. para quem estava de fora até tinha muita piada. a primeira vez que eu os atendi não foi diferente. não parti nada. nem pedi nada errado. mas fiz porcaria em todas as outras mesas que estava a atender. a vegetariana comeu frango, quem pediu capirosca bebeu caipirinha e por aí adiante. mas, no final das contas, acho que me saí bem. pelo menos eles não deram por nada. e com o tempo deixei de me preocupar em atendê-los com todos os cuidados do mundo. hoje em dia é a última mesa a que eu vou: clientes que pagam primeiro, patrões depois. se têm pressa levantem-se e tirem eles o cafézinho. e eles é que ganham. mas os meu patrões até são porreiros. fazem festas. pagam bejecas ao pessoal. levam-nos ao bowling uma vez por ano. e dão-nos conselhos, que na maioria das vezes não nos servem para muito no nosso dia-a-dia, mas fica a intenção. é divertido estar com eles. mas divertido, divertido, é vê-los trabalhar. e no lodo então é um festival. mas faz-lhes bem porque nos percebem melhor. lembro-me que quando o restaurante abriu comprámos uns copos de vinho altos, grandes, lindos. mas não cabiam na máquina. mas eram altos, grandes e lindos e por isso tinhamos de os usar. no final do turno tinhamos de os lavar. um a um. à mão. e todos os dias nos queixávamos. um ano depois um dos patrões foi dar uma mãozinha porque faltava um empregado. no dia seguinte mandaram-nos arrumar os copos num armário. e nunca mais os usámos. enfim. quem pode, pode. e é por isso que por muito fixes que sejam os patrões vai sempre haver empregados a falar mal deles enquanto se preparam para o trabalho e bebem mais um cafézinho. oferta do patrão.

sábado, 2 de abril de 2011

mas o homer simpson existe mesmo que eu sei.

ao longo do tempo o homem parece ter encontrado uma explicação para todos os gestos. se cruzamos os braços estamos na defensiva. se esfregamos os olhos temos dúvidas. se tocamos no nariz estamos a mentir. se nos balançamos para trás e para a frente estamos doidos. nos restaurantes também existem gestos dos clientes que nós, empregados de mesa, já tomamos como certos: se fecham o menu já escolheram, se olham fixamente para nós querem pedir alguma coisa, se levantam o copo da imperial vazio é porque querem outra. mas, às vezes, as pessoas enganam. era sexta-feira à noite e o restaurante estava cheio. a abarrotar. sala, cozinha, estava tudo no lodo. eu tomava conta de 8 mesas. 39 pessoas. chegou uma velhinha. sozinha, muito simpática. sentou-se numa das minhas mesa e eu, que sofro deste problema patológico de sentir pena de todas as pessoas que se sentam para comer sozinhas, tentei dar-lhe toda a atenção do mundo. ao lado dela estavam duas raparigas a beber sangria, à espera dos pratos. a velhinha de menu na mão olhava fixamente para mim. ou seja? quer pedir alguma coisa. muito bem. fui ao pé dela saber então o que queria pedir. ela, atrapalhada, respondeu rapidamente que não sabia ler. oh que triste. expliquei-lhe o menu. enquanto isso, as meninas do lado levantaram-se para irem ao wc- juntas,claro. pedi à avózinha um minuto: levantei pratos, corri para a copa, fui ao bar, limpei mesas. e de repente um grito. um grito que fez calar as 130 vozes que se ouviam e que abafou o bonito strangers in the night do sinatra: roubaram a minha mala! epá tu queres ver, já f*%ram a velha! corri até lá e só passado uns minutos é que percebi tudo: ai espera lá, então a velha é que nos f#%eu a nós?! isso mesmo: as meninas da sangria foram fazer o chichi e ficaram sem mala. eu não me apercebi de nada. e foi assim que eu deixei de acreditar nessa treta dos sinais. e criei uns novos: 1. quando um cliente olha fixamente para mim significa que quer pedir alguma coisa? não. está só à coca para ver quando é que o caminho está livre. 2. quando uma velhota vai jantar sem companhia numa sexta-feira às 10 da noite é porque se sente sozinha e eu devo ter pena dela? não, é porque pertence a um gang e está a preparar um arrastão. 3. quando uma avózinha diz que não sabe ler e tem uns óculos na ponta do nariz daqueles que as pessoas usam para ler é porque me está a fazer de parva e eu não percebo porque acredito nos velhos e que o jorge palma já não bebe e que o homer simpson existe mesmo e porque sou muito boa pessoa? sim, é isso mesmo. aí está. mas depois penso: e se a velha manhosa afinal tinha era alzheimer e pegou na mala porque pensava que era dela e foi-se embora porque pensava que já tinha comido? rebuscado? provavelmente. e é por estas e por outras que a mim já ninguém me engana. e os senhores escusam de se pôr a abanar no ar os copos de imperial vazios que eu agora já sei que isso não passa de uma manobra de diversão para a respectiva esposa roubar o saleiro. é para que saibam.

i rest my case

isto que aqui vai é só para reforçar a minha teoria: os chefes têm a mania. quando eram pequeninos os chefes deviam ser aqueles miúdos que acabavam as frases com um quem diz é quem é. ou o primeiro a falar é um ovo podre. resumindo: a última palavra tinha de ser sempre a deles. eu já atendi alguns chefes famosos aí na praça. eles não sabem quem eu sou -não sei porquê- mas eu sei bem quem eles são. já os vi a todos em brindes do expresso, no programa do goucha a fazerem ovos rotos e nas capas dos seus livros com a jaleca impecavelmente limpa. meus caros, eles não são assim, aviso-vos já. sempre que atendi o chefe avillez ele trazia consigo um bloco de notas. comia e escrevia, comia e escrevia. podia até estar a escrever a lista de compras que tinha de fazer: cebolas, natas, papel higiénico, foie gras. mas o gesto era intimidatório. nunca acabou os pratos e sempre que os fui levantar mandou recados para a cozinha. o meu chefe, claro, disse-me para o mandar ir àquele sítio. eu não disse nada. sei que a dor de cotovelo pode resultar nestas coisas. ainda assim acredito que ter um chefe com ar de anton ego na sala não deixaria nenhum linguini à vontade. enfim, sou fã do ratatui, o que é que se pode fazer. a terceira vez que o atendi pediu uma pizza. mas com ingredientes à escolha. ou seja, foi ele que a fez. quero bacon, isto, isto e aquilo. e que tal parar de cozinhar um bocadinho e comer uma das que está no menu? é como o outro. o tal que não tem maneiras. tem um nome difícil mas ainda assim conseguiu ficar famoso porque, dizem as revistas, faz menus de degustação low-cost deliciosos. na tasca lá ao pé da minha casa também fazem isso. primeiro caracóis, depois pipis, depois choco frito, depois pica-pau. rematam com uma bifana. não sei porque é que o senhor abílio também ainda não é famoso. mas adiante. o chefe lu..., lju... esperem aí que eu vou ver no google. ljubomir. atendi-o duas vezes. é daqueles que pede as coisas com o molho à parte. ah, pois é, já viram. quem diria. e pede sem azeite e depois pede o azeite. que é como quem diz quem tempera aqui sou eu que eu é que sei fazer isto bem. é assim mesmo chefe. e depois ele e os amigos pedem os cafés. 3 bicas. e ele vai lá para fora falar ao telemóvel. 10 minutos depois volta: olhe que falta aqui um café. epá não falta nada pá! estava à espera era que te sentasses à mesa para te tirar um quentinho. que mania pá. olha que o café frio faz dor de barriga. e tira lá a colher de pau do meu serviço. e a esta hora já estão os chefes lá está a gamela armada em coiso e tal. mas lá está: quem diz é quem é.

quarta-feira, 16 de março de 2011

o meu cliente preferido já não gosta mais de mim.

eu tinha um cliente preferido. o meu cliente preferido sabia o meu nome e eu sabia o dele. quando ele ia lá almoçar atrasava-me sempre o serviço porque ficávamos muito tempo à conversa. falávamos de livros, de amores, de viagens, de comida e de jornalismo. ele comia sempre a mesma coisa. e só bebia limonada. o meu cliente preferido podia ser meu avô mas os meu colegas diziam que era meu tio. às vezes quando eu não estava lá e ele se esquecia do que gostava de comer os meu colegas ligavam-me e diziam tá aqui o seu tio, o que é que ele come mesmo? mas isto raramente acontecia, porque ele sabia em que dia é que eu folgava e nem ia lá.
ora, eu não sou pessoa de me afeiçoar a clientes. gostava de um ou dois e chegava-me. ainda assim tive de rever esta minha opção, porque o meu cliente preferido trocou-me por outra. partiu-me o coração e agora já não sei se vou poder voltar a confiar noutro cliente desta maneira. tudo começou quando o meu tio deixou de me visitar durante meses a fio. perguntei-me se estaria tudo bem com ele, se estaria doente, se teria perdido a memória, se estaria vivo. depois vi-o passar na rua, de boa saúde. perguntei-me então se teria sido eu, se estaria magoado comigo, se o tiramisú que lhe dei estaria duro. até que um dia ele apareceu por lá. e foi nesse dia que eu descobri que tinha sido trocada. não pela jucilene do restaurante da frente, nem pelo edimar do restaurante do lado. então quem?
ela faz-me tudo. desde que a conheci já engordei e tudo- explicou o meu ex-tio- até me dá tiramisú do bom. então esta é a verdade: fui trocada por uma tal de bimby.
ainda hoje me pergunto onde é que essa gaja trabalha.