domingo, 27 de julho de 2008

silly season

e agora agosto. esta é a altura em que os lisboetas desaparecem e os turistas dão à costa. atender turistas pode ser muito interessante, especialmente no fim. digamos que, no que toca a gorjetas, eles sabem o que estão a fazer. além disso, garantem sempre umas boas gargalhadas.
lembro-me de um casal que apareceu no restaurante: amee-ricans and stuu-pid. o chapéu dele denunciava-o: certamente texanos. as botas, os calções e santa ignorância presidencial também. era uma cópia do mick de crocodile dundee, mas sem o sotaque australiano. ela loira e a fazer jus à cabeleira. tinha no mínimo menos 15 anos que ele. quando cheguei à mesa reparei que já tinham os menus fechados "já escolheram, portanto". perguntei com o meu melhor british accent (não me perguntem porquê mas diverte-me atender norte-americanos ao estilo europeu):
"have you decided?"
ao que a loirinha respondeu: "i want a steak with fries"
bife com batatas fritas?! oh meus deus isto promete. não te rias, não te rias.
"i´m sorry but i don´t have that."
"WHAT?!"- olhou para o texano com o seu ar revoltado, e ele, de perna aberta e a roer um pedaço de pão, disse:
"no steak and no fries? what kind of restaurant is this?hein?"
"well sir, this is an ITALIAN restaurant" - palhaços!
"and what do they eat in that place?"
"well, in ITALY they eat pasta, risottos, tuna steak..."
"i want one of this things...this has meat?"
"yes sir, because that's a meat lasagna."
20 minutos mais tarde volto com as lasanhas. "please,"- diz a loira- "ketchup".
"i'm sorry but i dont have that."
"NO KETCHUPPPP?!!"- abriu a boca de espanto e olhou para o texano que respondeu:
"well, daaa-rling this is europe. maybe they have mayonese".

sexta-feira, 11 de julho de 2008

clientes e clientes

normalmente consigo perceber que tipo de cliente tenho à frente nos primeiros 30 segundos. o cliente chato é muito fácil de identificar: é aquele que quer o bife com o molho à parte, as batatas sem sal, a cola com três pedras de gelo e uma rodela de limão sem casca. o café é cheio, em chávena escaldada e com adoçante. fácil, fácil.
o cliente "tive um dia de merda e tu é que as vais pagar", pode ser facilmente confundido com o "vim jantar fora com os amigos e tenho de lhes mostrar que sou o maior". a diferença é que o primeiro fala mal de tudo -da comida, da bebida, do serviço, sozinho. o outro faz o mesmo, mas só para os amigos verem que ele é mesmo um entendido na matéria. o meu gerente ensinou-me um truque básico para atender estes clientes sem perder o sorriso: sempre que me aproximo da mesa imagino-os em roupa interior xxl. resulta sempre.
o cliente surdo-mudo é aquele que não fala nem ouve. normalmente gosta de ser atendido pela empregada invisível. não quer saber de sugestões, porque não está disposto a ouvir e à pergunta "está a gostar?" responde com um grunhido, porque não quer falar. paga e sai. nem um adeusinho. o cliente "você não passa de uma reles empregada e está aqui é para me servir" é aquele que acha que todas as empregadas de mesa são empregadas de mesa porque não sabem fazer mais nada. e é assim que eles nos tratam. "traga-me um garfo, agora um guardanapo, vá buscar o sal, importa-se de me tirar este prato da frente, esta imperial está quente, já lhe pedi um café à meia hora". e a conta, finalmente.
o cliente comunicativo é aquele que me atrasa sempre o serviço porque só quer conversar. faz perguntas, fala dele, da comida e no fim como ainda lhe apetece conversar mais um bocadinho deixa sempre o número de telemóvel escrito num guardanapo, num pacote de açucar aberto, no recibo do multibanco ou na conta.
o cliente simpático é, obviamente, aquele que mais gosto de atender. é como atender amigos: conversa na medida certa, sorriem sempre que pedem alguma coisa e ainda deixam uma boa gorjeta.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

bem-vindos ao mundo da restauração

eu sou uma empregada de mesa. pshht, ó menina é como me costumam chamar. a vida de uma empregada de mesa pode ser muito mais interessante do que a maioria das pessoas imagina, sobretudo porque temos de lidar com duas espécies muito complexas: os clientes e os chefes de cozinha. e , claro, sempre com um sorriso.
na minha curta carreira já lidei com quase todo os tipo de clientes: o cliente chato, o cliente "tive um dia de merda e tu é que as vais pagar", o cliente surdo-mudo, o cliente "você não passa de uma reles empregada e está aqui é para me servir", o cliente comunicativo e, às vezes, também lá aparece o cliente simpático. chefes de cozinha só conheço um tipo: o "o chefe sou eu, quem manda sou eu, quem sabe sou eu". no mundo do chefe de cozinha ele é o imperador e os empregados de mesa são a plebe: não têm direitos e só estão ali para servir. mas isso vão perceber através das estórias que vos vou contar. e aposto que a próxima vez que forem a um restaurante vão deixar uma gorjeta mais generosa ao pobre empregado que vos atender.