quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ano novo, trabalho novo?

malta alguém quer trabalhar? o patrão precisa de empregados e eu preciso de coleguinhas novos. o pessoal é fixe, o trabalho aguenta-se e o salário é simpático. o que é que dizem?
p.s. enviem os vossos contactos para o email.
ah e o restaurante fica no chiado:)

memória das minhas clientes tristes.

uma das minhas melhores qualidades enquanto empregada de mesa é a minha memória. sou capaz de tirar os pedidos de uma mesa de 20, sem papel e caneta, PDA ou outra coisa que o valha. e isto inclui entradas, pratos principais, bebidas e picuíces de clientes exigentes. ou mesmo só chatos. à pala desta minha extraordinária capacidade já ouvi todo o tipo de comentários, desde o simpático a menina tem uma bela cabeça, ao céptico a gaja nem aponta vai trazer tudo trocado, segredado ao vizinho do lado. também me consigo lembrar de todos os meus clientes, mesmo os que já atendi há meses. mas ainda melhor. lembro-me da mesa onde se sentaram, do que pediram e da gorjeta que deixaram- e que más memórias que eu tenho. os meus colegas gostam de pôr esta minha capacidade à prova. acham-lhe piada.
lembro-me, por exemplo, de uma cliente muito, mas mesmo muito snobe, que com o seu marido, um inglês 30 anos mais velho que ela, veio almoçar uma pizza. a pior que já alguma vez comeu, segundo ela, que já comeu as melhores pizzas, nas melhores pizzarias de todo o mundo. em sítios que você nem consegue sequer imaginar. ok, já percebi a ideia. ora as nossas pizzas até são bastante elogiadas pelos clientes. cidadãos comuns, diga-se. mas desta senhora nunca mais me esqueci. foi por isso que há uns dias atrás não pude deixar de me rir sozinha quando a reencontrei num supermercado com preços mini a comprar uma pizza hawaiana. daquelas congeladas. com ananás. muito gourmet. eu disse-lhe boa tarde, ela não me respondeu.
enfim, nem toda a gente tem a minha memória. ou talvez sim.
texto originalmente publicado em agosto de 2009.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

clientes e amigos: feliz natal!


e eis que hoje vou ter o prazer de servir a minha querida-e igualmente exigente-família.

e a vocês desejamos um feliz natal, cheio de doces e bacalhau e com a mesa bem posta: talheres alinhados, copos polidos e tal.


despeço-me com muitos beijinhos e pontapés!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

o vinagre e a vida.

atender pessoas que têm algumas limitações é sempre difícil. como pessoas que não sabem ler e que têm ainda uma dificuldade acrescida em escolher um prato. leio o menu 3 ou 4 vezes. ai não sei filha, leia lá outra vez. e depois as sobremesas. e depois a conta. eu leio e releio porque, apesar de ficar com todos os clientes de dedo no ar a chamar por mim, sou solidária com pessoas que, tal como a minha avó, não conhecem a magia das letras escritas. não saber ler deve ser duro. são pessoas que passam pela vida sem ler um livro do saramago. ou as legendas do seinfeld.
também há os que ouvem mal. ainda que, pensado bem, neste caso eu também não seja muito melhor. ao cliente que me perguntou se o gin era gordon's, respondi sim, engorda um bocadinho. e ao outro que me pediu um glenfiddich não levei nada porque pensei que o senhor tinha só espirrado.
mas os episódios que guardo na memória são dois.
o primeiro: a senhora com alzheimer. ao princípio achei piada ao facto de a senhora me pedir a mesma coisa sempre que eu passava por ela. hehe tão engraçada. depois achei estranho. então mas 'tá-se a passar? e depois comecei a ficar irritada e fui lá. - minha senhora, já tirei o seu pedido e já está quase a sair. tem só é de esperar. e depois lá chegou o filho dela. e foi só quando ele me perguntou se a mãe já tinha pedido e ela disse: não, ainda não pedi- e eu abri a boca de espanto que percebi. e bastou dele um discreto abanar de cabeça e um semicerrar de olhos para eu entender que a senhora, apesar de não parecer, não estava muito certa das ideias. fiquei triste por ela e senti-me mal por me ter irritado. mas não me consegui deixar de rir quando levei os pratos e a senhora disse muito séria: menina, não foi isto que eu pedi. o filho olhou para mim e riu-se. ela, sem perceber nada, riu-se também. e enquanto ríamos os três, eu lembrei-me daquela ceifeira do pessoa de quem já me tinha esquecido. a tal que tinha uma alegre inconsciência.
o segundo: o grupo silencioso. um rapaz marcou uma mesa para 25 pessoas para um dia de semana. era a única reserva que tinhamos e foram mesmo os únicos clientes que tivemos nessa noite. o rapaz que fazia anos era surdo-mudo. os 24 amigos também. a estranheza da coisa levou-me a mim e aos meus colegas a dar alguns risinhos parvos. a dizer que todos os clientes deviam ser assim. a fazer piadas idiotas sobre quem é que ia cantar os parabéns. e depois houve alguém que desligou a música ambiente. e quando demos conta já estávamos a sussurar. depois deixámos, finalmente, de dizer parvoíces. olhávamos só uns para os outros, desconfortáveis. até que ficámos entregues ao que estávamos a sentir. durante toda a noite a única coisa que se ouviu naquela sala foi o som dos talheres a bater nos pratos: foi umas das experiências mais espectaculares da minha vida.
ser empregada de mesa também tem, assim, momentos profundos. verdadeiras lições de vida. e a maior de todas é esta: não termos vergonha de mostrar o que estamos a sentir, nem que seja a clientes. a segunda maior é deixar os talheres em vinagre antes de os polir porque as manchas saem mais depressa. ambas são muito úteis para a vida.
texto originalmente publicado em junho de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

no dia 2 de fevereiro de 2008 o professor e amigo carlos pinto coelho enviou-me este e-mail sobre o meu blogue:
"Bem interessantes as tuas histórias e a forma como as contas. Ligeireza, clareza, boa construção - em suma, um verdadeiro agrado. Convido-te a não perderes a embalagem e a não descansares a mão. Quem sabe se, daqui a uns tempos, não tens material para um livro simpático.
Grande abraço,
CPC"

eu segui o conselho e dois anos e meio depois ele, porque não podia ser mais ninguém, estava lá para apresentá-lo.

hoje é com uma profunda tristeza que deixo a minha pequena homenagem a um amigo que nos deixou demasiado cedo. foi e é GRANDE.
obrigado por tudo.

a minha alimentação gourmet.

sempre que eu digo que trabalho num restaurante as pessoas respondem: hmm, deves comer imensas coisas boas. hmm, deixa cá ver...não. nem por isso. no sítio onde eu trabalho hoje nem é muito mau: sai esparguete dia sim, dia não. no outro onde eu trabalhei vivia à base de arroz. arroz com chouriço. arroz com courgette. arroz com arroz. às vezes pergunto-me o que é que os meus colegas comerão nos outros restaurantes. como será o staff meal do eleven. e do tavares. enfim, às vezes perco-me nestes pensamentos. sobretudo enquanto como o esparguete.
como janto sempre às 6 da tarde, para superar a larica que me dá numa sexta-feira à noite quando já dei 50 voltas à sala e já só me apetece devorar os pratos dos clientes, levo uma buchazinha. pode parecer estranho, mas é que a cozinha nem sempre tem tempo para nos preparar um pãozinho. e quando tem às vezes só não lhes apetece. nem pão com pão. já dizia o outro: qualquer coisa espeto de pau.
mas pior que passar fomeca num restaurante é o pequeno-almoço. há quem coma kellog’s sem açúcar, eu como bacon com natas, ovo e esparguete. é que nós almoçamos às 11 da manhã por isso é mais ou menos saltar da cama, banho e carbonara. mas ainda não estou gorda por isso deve ser ela por ela. às vezes até temos sorte e é só uma lasanha de frango, com tomate e muita pimenta. muito light. mas o corpo habitua-se. às vezes quando estou a comer uma taça de chocapic na minha manhã de folga até já sinto falta de um queijinho parmesão por cima.
ora comer todos os dias no restaurante tem estas desvantagens: comemos mal, ficamos muitas horas sem comer, temos horários trocados e bife, só quando já está a ficar verde. é por isso que hoje em dia já quase tudo me sabe a frango.
no entanto, também encontro algumas vantagens. além da óbvia de não ter que gastar muito dinheiro em alimentos, também não tenho de estar sempre a pensar no que é que vou fazer para o almoço e para o jantar. e a verdade é esta, quando estou de férias e ao segundo dia começo a ficar sem ideias, sou a primeira a ir comprar bacon, natas e esparguete. hmm...

domingo, 12 de dezembro de 2010

espelho meu espelho meu: há algum chefe mais chato do que eu?

desde que comecei a trabalhar já tive de lidar com vários chefes. cada um com a sua mania, com a sua forma de trabalhar e mais importante, com a sua maneira de lidar de com a sala. muitos falharam nesta última função e por isso muitos foram à vida. ser a única pessoa a trabalhar no restaurante desde que aquilo abriu deu-me algum benefício em relação aos outros que chegaram depois. porque eu sei tudo o que se passou por lá. e os meus patrões sabem que eu sei.
e trabalhar com chefes pode ser díficil, mas eu também nunca disse que era fácil trabalhar comigo. eu sou um doce, sim, mas se meteram a colher de pau no meu trabalho está tudo tramado. e é por isso que nos últimos 3 anos, em que tive uns 8 chefes e sub-chefes eu posso dizer que tive discussões daquelas de se ouvir na rua com praticamente todos. sempre em prol do cliente, claro está.
o primeiro chefe que por lá passou chegou amuado e saiu amuado. tirando a parte que andava a pontapear tachos, pouco ou nada me recordo. esteve lá de passagem. saíndo ele ficou o sub-chefe a tomar conta da coisa. deu merda. eu sempre soube que ia dar. ele também. o problema deste sub-chefe que passou a chefe é que ele gostava mais de beber do que de cozinhar. e isto revelou-se um problema, sobretudo quando ele apanhava valentes cadelas durante o serviço e eu tinha de andar de rabo para o ar na cozinha à procura dos pedidos que ele tinha perdido.
pior do que isso era controlar o stock do bar. sempre que servíamos um whisky tinhamos que fazer uma marca na garrafa para sabermos onde tinha ficado. e a cozinha deixou de ter garrafas de tinto e de branco para temperar os risottos. sempre que saía um risotto lá tinha eu que lhes ir dar uma dose certa de vinho. mas mesmo assim, às vezes, o chefe chegava mesmo a tentar enganar-me e fazia-me ir ao sistema ver se estava algum risotto para sair. atrasava-me o trabalho, deixava-me irritada, eu chamava-o bêbado e ele chamava-me filha da outra. no final fazíamos as pazes, até ao próximo turno. quando os patrões se cansaram de lhe dar oportunidades lá se foi ele. e as garrafas voltaram à cozinha.
e depois o sub-chefe do sub-chefe que se tornou chefe, tornou-se chefe. mas há pessoas que não nasceram mesmo para a coisa. era um óptimo cozinheiro, um péssimo chefe. um dia eu pedi um bife. quando fui à roda ele já o estava a empratar e eu achei o bife...diferente. olha lá eu não vou levar esse bife, tá muita pequeno pá. ele olhou para mim, olhou para o bife e disse não te preocupes que eu disfarço. e toca a esconder o bife debaixo da salada e das batatas. eu contei até 30 e depois, claro, fiz o que sei fazer melhor: birra. e disse que não ia levar o bife. e ele disse que não ia fazer outro. e eu disse que ele devia ter vergonha. e ele disse que ele é que mandava. e eu- sem querer, claro- atirei com o prato do bife ao ar e disse ai fazes-me outro? e ele fez, muito contrariado. missão cumprida: o cliente ficou satisfeito com o tamanho do seu bife. os bangladeshianos tiveram medo de mim durante uma semana. e o chefe fez as mala e pôs-se a andar. ficámos bons amigos.
e foi aí que os patrões se decidiram a contratar um chefe que, segundo eles, se ia dar muito bem comigo. e foi com ele que eu passei as passinhas do algarve. o meu problema é este: eu sou adepta da consistência. eu acredito que clientes que voltam e pedem o mesmo da última vez, querem o seu prato igualzinho ao que comeram da última vez. e é só por isto que eu discuto e atiro com bifes ao ar. gosto de consistência na apresentação, consistência no sabor, consistência no tempo. gosto tanto, tanto, que os meus patrões asseguraram-se de que seria eu a ter atenção ao que passava daquela roda para os clientes. mas este chefe chegou com vontade de mudar tudo. e eu, com a desculpa que cumpria ordens de cima, a tudo o que saía diferente batia o pé. não vou levar, isto não é assim. ao que o chefe respondia agora é. e de cada prato vi oito versões. andámos meses nisto, a gritar como dois adolescentes. e a guerra estava oficialmente instalada: era a sala contra a cozinha. de um lado gamelas, do outro queima-cebolas.
até que o chefe se cansou e também ele se pôs a andar.
hoje, cozinha e sala vivem na paz. cada um no seu lugar. o novo chefe é, afinal, uma chefe. e ninguém discute. não sei o que isto significa, mas deve haver uma explicação para a coisa.
no fim sinto falta deles todos. o que vale é que tenho um chefe cá em casa e posso gritar com ele à vontade. ele deixa porque sabe que é só para matar saudades. a maioria das vezes.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

salazar e o trânsito intestinal regulado.

há uns dias atrás, mal abri o restaurante, entrou uma velhinha. baixinha, cabelo branco, toda vestida de preto, muito amorosa. uma avozinha. fui ter com ela de menu na mão e sorriso nos lábios: bom dia! ela olhou para mim e disse menina quero só um iogurte.
-um iogurte?
-sim, pode ser daqueles dos bifes activos.
-mas minha senhora, isto é um restaurante, eu não tenho iogurtes...
- então quero só uma empada. vi logo que a senhora não se tinha apercebido que estava num restaurante italiano e antes que ela pedisse rissóis e croquetes respondi-lhe com a melhor das intenções: olhe porque é que não vai ali do outro lado da rua, tem um café, eles lá têm iogurtes, empadas e essas coisas todas...eu levo-a lá.
a senhora levantou-se, virou-se para mim e disse enquanto saía porta fora: vocês jovens não querem mesmo trabalhar. só se fala nisto da crise, da crise, mas ninguém quer é trabalhar. eu vou a outro sítio, vou. olhe que isto no tempo do salazar não era assim sabe, aquilo é que eram tempos, toda a gente trabalhava.
ah pois, e toda a gente vendia bifidus activos, aposto.
mesmo amorosa, o raio da velha.
texto originalmente publicado em julho de 2009.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

os que desistem e os outros.

estar 12 horas por dia, seis dias por semana, sempre com as mesmas pessoas e sempre a dobrar guardanapos ou a polir talheres ou a atender clientes não parece muito entusiasmante, pois não? é porque não é mesmo. e é por isso que normalmente uma de duas coisas acontece: ou se desiste ou se fica meio maluco. nestes últimos três anos eu já tive bem mais do que uma centena de colegas, muitos desistiram e de muitos os patrões tiveram de desistir. exactamente por isso: eram completamente alienados- diziam eles. eram maluquinhos-dizia eu.
um dos que por lá passou era assim: vegan, ambientalista, zen. tinha os chacras todos no sítio. só tinha um problema: não gramava muito seres humanos. o que pode ser chato quando se tem de atender, sei lá, pessoas. quando uma cliente entrava ele já fazia má cara, só porque ela entrava. quando ela perguntava se se podia sentar na mesa do canto ele dizia que não. não lhe dava nenhuma razão, era só porque não. mas eu sei bem qual era: as pessoas não podem ter sempre o que querem- explicava. e toma lá mais uma lição de vida. ainda assim acho que a senhora tinha preferido ficar na mesa do canto. depois havia ainda aquela altura em que ele levava o ice tea à senhora e o entornava em cima do seu vestido cor-de-rosa. e era precisamente nessa altura, em que ele devia pedir desculpa, que ele dizia irritado não acha que foi de propósito pois não? e pronto, lá se foi o vegan, ambientalista, zen.
e depois havia o outro. italiano. doidinho. quando as pessoas deixavam comida no prato ele perguntava sempre no seu português esquisito então estiava una mierda? isso mesmo. era lindo de se ver.
e foi ele mesmo que na altura do natal atendeu comigo um dos muitos grupos que se juntam para um jantar seguido de uma entediante troca de prendas. e duas horas depois de termos fechado, o grupo lá se decidiu a sair e eu comecei a levantar os copos e os guardanapos. o italiano pegou num saco do lixo e enfiou rapidamente para lá tudo o que era papel de embrulho e embalagens vazias. de saco cheio na mão abriu a porta do restaurante e gritou: signores esquiecieram-se disto. um dos rapazes que seguia com o grupo -que já ia no fundo da rua, correu o mais rápido que pôde enquanto perguntava o que é? e só quando chegou ao pé do italiano maluco é que este lhe respondeu enquanto lhe entregava o saco para a mão: é seu signore. o viosso lixo!
-mas então...não o quero..não pode levar-me isso para o lixo?
- io? é cierto que não signore. no sou empregado de ninguém!
exacto. mesmo muito alienado.
texto originalmente publicado em fevereiro de 2010.

domingo, 5 de dezembro de 2010

o serviço está lento, mas a culpa é do chefe.

eu pensava que ser empregada de mesa era um trabalho muito difícil: levantar pratos, polir talheres, convencer clientes, aturar alguns, limpar sanitas, esfregar o chão, fazer caipirinhas, lidar com chefes tiranos, colegas imprevisíveis. não havia nada na minha cabecinha que pudesse dificultar isto. mas quando comecei a ter vontade de ir fazer chichi de 5 em 5 minutos, quando comecei a enjoar o cheiro da carbonara e do café e do molho de tomate, quando comecei quase a adormecer em pé se o cliente levasse mais do que 3 minutos para escolher, quando os meus pés começaram a inchar e a minha barriga deixou de passar nos intervalos das mesas eu percebi que, afinal, ainda podia piorar. mas no bom sentido. e, apesar de a ideia de conseguir passar a levar 3 pratos nas mãos e um apoiado na minha barriga gigante me parecesse muito divertida, não tive hipótese senão reduzir o meu horário e ficar mais tempo a ver porcarias na televisão. e é só por isso, caros clientes, que eu não estou lá sempre que me visitam e não tenho escrito tanto. inventar estórias está fora de questão, até porque nunca haverá necessidade disso: há por aí muita matéria-prima. mas os vossos e-mails e pedidos de mais e mais textos merecem resposta. e esta é a dita. mas é temporária, coisa para mais uns mesinhos. até lá vou voltar a publicar o que apaguei e vou escrever coisas novas. sempre que conseguir. e feliz da vida. eu e o meu querido chefe que me atrasou o serviço.
e então, estou perdoada pela demora?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

ou eu ou o maluco.

eu tive um colega que era maluco. eu sempre me dei bem com todos os meus colegas. mas com este que era maluco eu não consegui. por causa deste meu colega que era maluco eu fui dizer aos meus patrões que me queria ir embora. façam as minhas contas que eu já não consigo trabalhar aqui com aquele maluco.
o meu colega que era maluco ao princípio não parecia maluco. acho que é sempre assim com todos os malucos, psicopatas e tarados. ao início ninguém se apercebe de nada. ele passava a vida a cantar chorinhos e tinha muitos músculos. era atarracado. no início de cada turno escondia no bar o seu frasco de pó, que misturado com água se transformava num batido que lhe aumentava os bíceps. por noite bebia 3 ou 4. talvez tenha sido isso que o fez ficar maluco.
com tanta testosterona acumulada ele só não quis bater no patrão. mas quis bater no gerente, nos empregados de mesa, em alguns clientes e num dos chefe de cozinha. e eu só não percebia porque é que ninguém o mandava embora. e durante meses a minha vida pareceu um longo episódio do twillight zone.
a função do meu colega maluco era quase sempre receber os clientes à porta e leva-los até à mesa. facílimo. mas ainda assim conseguia arranjar problemas. lembro-me de um casal muito simpático de dois senhores muito apaixonados que ele sentou numa das minhas mesas. o casal não gostou da mesa porque atrás deles estava um grupo muito barulhento. é justo. como o restaurante estava vazio eu disse que não havia problema e que ia informar o meu colega responsável para os mudar de mesa. e foi o que eu fiz. e fui à minha vida. 10 minutos depois, o casal gay, sentado na mesma mesa, chamou-me. tinham o ar mais assustado do mundo. olhe desculpe, mas nós não gostámos nada do que o seu colega nos disse e achamos melhor ir embora. eu ouvi o que eles tinham para me dizer, envergonhei-me por ele e disse-lhes para escolherem a mesa que quisessem. temi pela minha carinha sem cicatrizes e pela minha dentição completa, mas fiz o que tinha de ser feito. e depois, claro, fui fazer queixinhas. e foi por mim que o meu gerente ficou a saber que o meu colega maluco tinha dito àqueles senhores que eu é que decido onde é que as pessoas se sentam. vem aqui muita gente famosa e até eles se sentam onde eu mando por isso os senhores que nem isso são ou se aguentam aqui ou vão-se embora. o meu gerente pediu-lhes desculpa, ofereceu-lhes o vinho e pediu-me para ter calma. a mim!?
quando não estávamos com medo, eu e as minhas coleguinhas divertiamo-nos a chatear o maluco. deixávamos as senhoras ir à casa-de-banho quando ele a estava a limpar e riamos disfarçadamente quando ele saía disparado lá de dentro com as luvinhas azuis de látex, os dentes cerrados e a respiração acelerada de raiva. fingiamos que não percebiamos o que ele nos pedia e ele fechava os punhos e semicerrava os olhos e gritava não entendeu que eu 'tou mandando? nós sorriamos, e ele quase espumava. ao fim de alguns meses já ninguém o podia ver à frente. e foi só por isso que eu até hoje não percebi porque é que só o mandaram embora quando eu disse que com ele não trabalhava mais. às vezes imaginava que os meus patrões tinham espalhado câmaras pelo restaurante e que se divertiam com aquilo como quem se diverte com o big brother. houve até uma altura em que eu andava triste porque pensava que, se ninguém via, se calhar eu é que era a maluca. e pensei durante muito tempo. até ao dia em ouvi uns estalinhos e o descobri no bar, de corta-unhas na mão, a nivelar os cascos dos pés.
aí tive a certeza de quem era o maluco.

domingo, 21 de novembro de 2010

the american way.

apesar de, às vezes, ainda me sentir perdida no meio de pratos, talheres e guardanapos, sempre que um empregado novo chega tenho tendência para o tratar com alguma condescendência. acabou de chegar, coitado, não sabe como as coisas funcionam por aqui, tenho de ajudá-lo. e normalmente o novo empregado, que não sabe como as coisas funcionam, agradece. e uma semanita chega para ele aprender e eu ficar com a sensação de dever cumprido. ora, tenho alguma experiência, gosto de servir as pessoas e por isso, gosto de acreditar que sou boa no que faço. quando eu comecei como empregada de mesa, eu só levava um prato de cada vez, não sabia abrir uma garrafa de vinho e entregava os talheres ao cliente, directamente da minha mão. hoje, levo três pratos, abro uma garrafa de vinho em 5.2 segundos e, às vezes, ainda entrego os talheres ao cliente directamente da minha mão. mas continuo a aprender coisas novas todos os dias. e o mais curioso é que são sempre os recém-chegados, a quem eu expliquei como polir os talheres como quem explica como fazer uma cirurgia cardiovascular, que me ensinam como fazer coisas como servir um whisky sem usar um medidor ou como abrir uma garrafa de espumante sem dar com a rolha na cabeça de ninguém.
mas ainda dou umas boas calinadas.
o novo empregado de mesa perguntou-me, enquanto eu o ensinava a polir copos, qual era o nosso tipo de serviço.
- qual é o nosso tipo de serviço?....serviço....
- sim, qual é o vosso serviço?
- bem...o nossso serviço..
- é americano?
- não sei. é da pollux.
ele subiu o sobrolho, fez que sim com a cabeça e continuámos a polir copos. e apesar de ainda me ter passado pela cabeça que ele era um bocado doidinho em querer saber pormenores como a proveniência do serviço, consegui perceber mais tarde, quando inseri "serviço americano" no google, o que ele quis dizer. serviço americano: tipo de serviço no qual o prato vem preparado e decorado da cozinha, sendo apresentado ao cliente directamente. e ainda descobri o serviço à francesa e o serviço à inglesa. e pela primeira vez, fiquei contente de seguirmos os americanos por lá. nunca disse ao meu colega qual era o nosso tipo de serviço. ele demitiu-se antes disso. provavelmente ficou nervoso por não conhecer o serviço à pollux. ou provavelmente não.
de qualquer das maneiras ganhámos os dois: eu aprendi os tipos de serviço. ele aprendeu a polir copos como deve ser. e é assim que os empregados de mesa, um dia, vão dominar o mundo. o da restauração, pelo menos.
tenho dito.

sábado, 6 de novembro de 2010

dinner and a show.

trabalhar num restaurante pode ser perigoso. sobretudo na cozinha. é a pressão, o calor, a comunicação feita numa salgalhada de línguas, os empregados de mesa a fazerem asneiras. e além disso há facas por todo o lado. por isso, quando eu trabalhei num restaurante que tinha a cozinha aberta, às vezes, os clientes tinham direito a mais do que um jantar.
nós, empregados de mesa, temos um trabalho monótomo, mas que depende sempre dos clientes para melhorar ou piorar o dia. na cozinha não é assim. principalmente naquelas em que o menu é o mesmo há uma porrada de anos e eles fazem sempre a mesma coisa. e nesta era assim. eles faziam a preparação, organizavam a mise-en-place e quando não estavam a preparar um daqueles pratos que já faziam de olhos fechados, ficavam a olhar para nós. ou uns para os outros. e às vezes até isso os podia fazer perder a cabeça. e de que maneira.
um dos cozinheiros que trabalhava nesse restaurante, era alto, encorpado e completamente assumido. era a minha melhor amiga. falávamos de rapazes, manicure, malas e máquinas para esticar o cabelo. quando íamos jantar ele atrasava-se e eu esperava por ele 30 minutos. quando íamos comprar sapatos as vendedoras arregalavam os olhos quando ele perguntava se tinham a sandália prateada no número 42. quando saía à noite com ele nunca consegui conhecer um rapazinho porque ele só me levava a bares gay. e sempre que eu lhe perguntava como ele estava, ele respondia com um assertivo estou óptimaaa, querida.
então quando este meu amigo estava na cozinha e olhou por breves instantes para outro colega, a quem nunca ninguém ouviu dizer uma palavra, a confusão instalou-se. e foi mais ou menos isto.
- estavas a olhar para mim?- disse o caladinho.
- eeuuu?
- não olhas assim para mim ouviste?
(aproveito para relembrar que a cozinha era aberta...)
- eu algum dia vou olhar para você, feio como você é?- e virou-lhe as costas.
o outro espeta-lhe um calduço. o meu amigo, que estava com um tacho na mão, vira-se e espeta-lhe com o dito na cara. o outro dá-lhe com a direita. e há gritos. e ingredientes a voar. e banglas a tentar separá-los. e quando se fez silêncio e eles se aperceberam onde é que estavam, havia 8 empregados de mesa especados e 90 clientes de boca aberta, tudo a olhar para eles.
no dia seguinte, o caladinho foi demitido e o meu amigo continuou a dizer a todos que estava óptima. e estava mesmo: leve e solta, de olho negro e sandálias prateadas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ai as cusquices que eu sei e não digo são tão giras.

as coisas interessantes que os fornecedores nos contam sobre os ditos restaurantes de luxo de lisboa.
a crise toca a todos meus amigos, é o que vos digo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

exclusivo: catarina furtado comeu massa e bebeu vinho tinto.

eu gostava de atender todos os meus amigos sem eles conseguirem perceber que eu sou eu. não é difícil perceber porquê. a pessoa-cliente demonstra como é como pessoa-humana. se eu tenho amigos que tratam os empregados como eu trato os bichinhos da prata que encontro atrás do meu sofá então eu gostava de saber quem são. nunca mais ia gostar de nada que eles escrevessem no facebook, nem sequer lhes fazia biscoitos pelo natal. estariam fora da minha já muito restrita lista de pessoas a quem eu atendo o telemóvel depois das 11 da noite. isto não quer dizer que toda a gente tenha que gastar todos os seus sorrisos do dia com o rapazito que lhes serve o bacalhau. mas também não o precisam de maltratar só porque ele é apenas o rapazito que lhes serve o bacalhau.
a minha ideia sobre as pessoas é, assim, muitas vezes formada, depois de os atender. como com algumas vedetas da nossa tv. de alguns a ideia melhorou, de outros lixou-se completamente, de outros manteve-se. como a daquele senhor dos ídolos, por exemplo. aquele que inventa piadas rebuscadas que ainda assim não têm piada. já o atendi 3 vezes. é o sr.pepperoni. ele é mesmo assim. sempre sozinho, porque tem mau feitio, de phones nos ouvidos, a ler o jornal e a falar com aquele mesmo tom de voz, alto e imperativo, de quem me está a avaliar o serviço. traga-me uma imperial. traga-me um café. traga-me a conta. uma vez antes de sair do restaurante virou-se para trás, como quem vai agradecer...afinal tinha-se esquecido do jornal.
mas já atendi muitos outros: manequins que pedem caipirinhas light- no açúcar, não na cachaça-, ministros e ministras, alguns nem sei eu bem de quê e velhos e repetidos actores das novelas da tvi. como a dalila carmo, uma das pessoas mais simpáticas que eu já atendi. um bocado acelerada, mas muito simpática. ou o ricardo carriço, tão educadinho.
depois há os outros, que me surpreendem. a primeira vez que atendi o nuno lopes já ía com vontade de rir, à espera que ele fizesse o pedido e no fim fizesse tcharán!, mas afinal não. é dos mais tímidos e caladinhos que já vi. a verdadeira anti-vedeta. é dos poucos que passa na rua e me cumprimenta. e depois o nilton. não houve nem paga o que deves, nem eu amo você, nem sequer piadinhas que o comum dos mortais faz com os empregados de mesa. nada. ficou a ouvir durante 3 horas a sua companhia. calminho, caladinho e quietinho. tão quietinho que só ao fim de uma hora é que me apercebi que ele estava a ser torturado por um ar-condicionado a pingar e nem reclamava.
há também aqueles que entram, enchem a casa porque são reconhecidos e não têm problemas com isso. mas não deixam de ser simpáticos. como o irmão guedes. não sei qual deles era, mas até foi à cozinha dar beijinhos às cozinheiras que se abanaram com guardanapos e lhe disseram adeus durante o almoço todo. quase que me desmaiavam todas ali.
e depois, claro, os alucinados: como a cantora de jazz maluco maria joão. é, provavelmente a pessoa mais estranha que eu já atendi: pede coisas que não estão na ementa, bebe sempre dois sumos de fruta de uma vez antes de comer, demora horas a acabar. e é, no seu conjunto...diferente, vá. enfim, são muitos. e de todos tenho hoje outra opinião. como da catarina furtado, por exemplo. se desde o tempo em que ela se pôs a gritar para o palco eu tinha uma ideia não muito querida dela, hoje tenho outra. é uma cliente simpática, educada e fotogénica, já que aceitou tirar fotos com a malta toda.
os famosos são assim como os meus amigos. eu tenho uma ideia deles, mas será que é a certa? bem, eu sei que às vezes também não sou a melhor amiga que podia ser, sobretudo quando os meus ex-colegas e amigos que são hoje jornalistas paparazzi me ligam para saber o que é que a protagonista da novela das 8 comeu e bebeu. eu isso não digo. é que eu levo a privacidade dos meus clientes muito a sério.
como se pode aliás ver.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

à espera do cavaco.

eu só tenho uma folga por semana. normalmente, na minha folga tento fazer apenas aquilo que me apetece. a maior parte das vezes não consigo. tenho de limpar a casa, visitar a mãe, visitar o pai, encher a despensa e o resto do tempo tento desfrutar do meu sofá porque me custou um ordenado e acho que tenho de o fazer render. ainda assim ter uma folga é genial. é um dia sem talheres, sem pedidos, sem uniforme. mas, mesmo na minha folga pergunto-me sempre o que se passará por lá. quando estou a almoçar com a minha mãe, pergunto-me se estará cheio, quando estou a passar a ferro à hora do jantar, pergunto-me se estará cheio. quando encosto a cabeça na almofada para dormir, pergunto-me se ainda estará por lá um cliente daqueles que não nos deixa ir embora. a maior parte das vezes passa-se por lá o mesmo que se passa em todos os outros dias: absolutamente nada de novo. o dia de ontem foi igual ao de antes de ontem e será igual ao de amanhã. mais cliente chato, menos cliente chato, é assim que a coisa funciona. mas, como nunca se sabe, pergunto sempre que chego da minha folga como é que foi ontem? já sabendo que a resposta é o mesmo nada de especial de sempre.
mas afinal, eu não devo ser uma pessoa lá com muita sorte. é que, há uns dias atrás, quando perguntei como é que foi ontem? ninguém me disse nada de especial. disseram-me antes foi bué da fixe, o socratés veio cá jantar! ora, para mim, que até sou uma pessoa que tem um certo orgulho nisto de servir à mesa, isto não me parece nada justo. então eu passo lá tantas horas e o senhor vai lá quando eu não estou? quer dizer que enquanto eu estava a limpar a minha casa-de-banho eu perdi uma hipótese num milhão e agora já não vou poder dizer aos meus netos sabem que a avozinha antes de ganhar o euromilhões era empregada de mesa e serviu o primeiro-ministro? bolas. e havia seguranças. e paparazzis. e quando vi o que ele gastou nem perguntei quanto deixou de gorjeta. a dor já era muita. e eu nem gosto assim muito do senhor.
enfim, não foi porreiro, pá. mas para que isto não volte a acontecer gostava só de deixar então aqui uma mensagem: senhor presidente cavaco, poderia fazer o favor de apontar aí na sua agenda presidencial que a minha folga é à quinta-feira? quin-ta. obrigadinho.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

há um empregado de mesa em cada um de vocês. mesmo que sejam muito chiques.

eu tive uma colega que se chamava samantha. este não é um nome falso. o nome dela era samantha e eu não consigo inventar outro nome para a samantha. tem que ser samantha. a samantha era uma menina que decidiu trabalhar no verão para ganhar alguns trocados para vestidos, cintos e caipirinhas no bbc. ela não precisava de trabalhar. era só uma menina rica e mimada a fazer frente aos papás.
a primeira vez que vimos a samantha foi na entrevista. ela estava sentada numa mesa com o gerente e nós andávamos em volta a limpar o restaurante. e à escuta. e foi logo aí que lhe tirámos a pinta: ela no seu sobretudo branco imaculado, baton vermelho e cabelo ruivo fazia mais perguntas ao gerente do que ele a ela. o momento foi tão hilariante que no final todos foram perguntar ao gerente se ele tinha conseguido o emprego. mas, apesar de tudo isto, ele contratou-a como a nova empregada de mesa. era gira e isso, muitas das vezes, bastava-lhe.
eu e os meus colegas já sabiamos como é que aquilo ia ser: nós eramos o gangue e ela era a betinha que não devia fazer parte da história. e foi com essa cara que a recebemos no seu primeiro turno. e, na primeira vez que fiquei frente a frente com a samantha, ela olhou-me de alto a baixo e disse-me: olha, gosto do teuuu...casaco. e depois comemos, vestimos os uniformes e preparamo-nos para a guerra. e depois o gerente: tu ficas na porta, vocês ficam nas mesas e tu ficas no bar. a samantha fica contigo para aprender. comigo? mas que mal é que fiz? e as minhas colegas riram-se de mim porque eu fiquei encalhada com a samantha. ao fim de 30 minutos num bar com 4 m2 eu já não podia vê-la à frente. e ela estava sempre minha à frente. eu, no lodo, não tinha a mínima vontade -ou tempo- de ensinar a betinha a tirar um café. e, no fim da noite, descabelada, transpirada e esfomeada olhei para a samantha: não tinha um fio de cabelo fora do sítio. vá samantha, agora vais-me ajudar a limpar isto. limpa os copos e o lavatório. 2 minutos depois diz ela com a cara mais enojada do mundo: desculpa...como é que queres que eu limpe isto?- isto era uma pia cheia de restos de menta dos mojitos, limas moídas das caipirinhas, palhinhas usadas e cascas de limão dos martinis. - como assim? limpas. atiras isso para o lixo e lavas. 2 minutos depois ela chega ao pé de mim e diz: desculpa...não percebi. queres que eu mexa naquilo? eu, no meu pior dia de tpm, cheguei à pia agarrei uma mão cheia do que para lá estava, apontei-a à cara da samantha e disse: fazes assim! pegas nisto, atiras para o lixo e depois lavas. alguma dúvida? -não, mas...podes-me arranjar uma luva? eu não vou tocar...nisso.
no dia seguinte a samantha ficou na sala. de camisa, avental, leggings e botas de salto alto. para lá e para cá. o barulho das botas da samantha enlouquecia-nos a pouco e pouco. ploc ploc ploc. o gerente recebeu tantos olhares de "oh lhe dizes que amanhã tem que vir de ténis ou eu passo-me da cabeça" dos meus colegas que no fim do turno foi falar com ela. não teria sido preciso: no final da noite o calo que ela tinha no pé tinha chegado para ela entender. os dias foram passando e a samantha foi resistindo aos meus dias de mau humor, aos gritos dos meus colegas, aos raspanetes do gerente. e ao fim de 3 semanas já tinhamos, finalmente, criado um monstro. a perfeita samantha, aquela miúda que parava de levantar pratos de 2 em 2 minutos para retocar o gloss, era agora uma empregada de mesa: descabelada, suada, vermelha, de avental sujo, sem luvas e a dar o litro. e limpava as casas-de-banho como ninguém. e era a melhor a despachar os clientes.
mas, ao fim de mais uma semana, a samantha decidiu ir-se embora. foi um mês de trabalho que lhe deu um ordenado que lhe chegou para o que queria. e também me chegou a mim um mês para perceber que, se dermos uma oportunidade às pessoas, elas às vezes revelam-se melhores do que alguma vez imaginámos.
quando a samantha foi buscar o salário já era aquela menina betinha de novo. de casaco vermelho, pérolas e sabrinas. mas quando eu me despedi dela e ela sorriu eu vi muito além do que ela mostrava. e antes de sair porta fora ela ainda olhou para mim de alto a baixo e disse: olha, gosto do teu...avental.
ilustração de Manel Cruz

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

a velha e debatida questão.

devo eu, empregada de mesa, avisar a senhora cliente que tem a bela da cueca -ou algo mais- à mostra ou fico calada, faço o meu trabalho e deixo-a ser a atracção esquisita da noite?

ora, ajudem-nos lá com esta.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

oh menina que coisa horrível é esta com que eu acabei de me deliciar?

cada vez mais me convenço que os clientes não sabem como fazer as coisas porque nunca ninguém lhes explicou. ora isso acaba aqui e agora. estas dicas são preciosas por isso guardem-nas para a vida. há, evidentemente, muita coisa que os donos dos restaurantes não querem que se saiba. por exemplo... deixa cá ver: um prato que custa 12 euros tem um custo de 90 cêntimos. a segunda-feira é o pior dia para se comer fora. e adiante. mas lá está, se não querem que isto se saiba, também não sou eu que vou dizer. o que interessa aqui são pequenas coisas que toda a gente tem o direito de saber. e assim chegamos ao cenário nº1:
a sobremesa.
é 2ªfeira e vai almoçar fora com a sua amiga. comem uma saladinha, bebem água fresca, conversa para aqui, conversa para ali e depois chego eu. vão desejar sobremesa? ai sim, são dois pudins. lamento senhoras, mas só tenho um pudim. cá está: dilema nº1. quem fica com o pudim? resposta certa: ninguém. se o restaurante 'tá vazio e só há um pudim cá está uma boa dica de que não é de hoje. será de domingo? de sábado? o melhor é escolher outra. ser um pudim muito bom que foi feito ontem e vendeu-se quase todo ao jantar, é possível. mas é pouco provável. o mais certo é ser só um pudim ressequido. e não tem mal nenhum perguntar ao empregado o que é que tem de hoje. estranho é discutirem por aquele pudim velho que eu já vejo no frigorifico há 3 ou 4 dias. e o mais certo é dar em reclamação. e assim chegamos ao cenário nº2:
a reclamação.
a família vai a um restaurante para um jantar descontraído de fim-de-semana. pedem os pratos, as bebidas, comem e bebem. no final vou eu levantar os pratinhos. olhe, desculpe! diga lá ao chefe que este risotto estava muito mau. péssimo. até o meu marido faz melhor que isto.
eu olho para a senhora. olho para o marido. e olho para o prato: só faltava ser lambido. nem um grãozinho de arbóreo para contar a história. e lá vou eu para a cozinha, que tem uma grande janela. a senhora e a família dela estão todos a olhar para mim através do vidro. a confirmar que eu vou reclamar. e vêem-me a falar, a ouvir com ar de interessada e a dar meia volta. e depois vou à mesa: já comuniquei ao chefe. e a senhora faz o seu ar triunfante enquanto olha para o chefe, que sorri de volta. ora, se esta senhora e a sua família soubessem ler os lábios teriam percebido que eu não comuniquei ao chefe absolutamente nada. fui lá e disse: então e o que é que achas desta cena do carlos cruz? ele respondeu. eu ouvi interessada. e dei meia volta. e perguntam vocês: mas porquê?
ora, por isto: para mim comer tudo e reclamar não tem valor. eu ia reclamar, o chefe ia ficar nervoso, ia ficar horas a pensar o que tinha feito de errado naquele risotto, ia-se distraír e ia fazer porcaria. e tudo porque uma senhora comeu tudo. há até pessoas que, em situações idênticas, reclamam depois terem de pagar pelo prato. mas o senhor pediu a algum dos meus colegas para trocar o prato? não. e consumiu-o? sim. então peço desculpa senhor, mas as normas da casa obrigam-me a cobrar. sim, eu às vezes invento normas da casa. mas parece-me absurdo eu ir à zara comprar um vestido, levá-lo a uma festa, passear-me com ele e depois ir à loja reclamar que afinal não me fica bem. era bom. mas também era parvo.
por isso já sabe, se quer que o chefe ouça a sua reclamação, reclame antes de comer tudo.
mas há excepções, claro. clientes habituais que comem sempre a mesma coisa e que um dia, de prato limpo, me dizem: olhe diga lá ao chefe que isto hoje não estava grande coisa. e eu digo ah e tal podia ter dito e ele diz ah e tal deixe lá. e aí sim eu vou à cozinha, transmito a mensagem e pedincho uma sobremesa para compensar o senhor. epá, pode ser aquele pudim que 'tá aí há 4 dias.
e então, sou querida ou não sou?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

doutor preciso de ajuda: os meus clientes não fazem o que lhes digo, batem o pé, choram, gritam e atiram-se para o chão.

esta é uma matéria sensível. eu sei disso, porque já me causou ao longo destes 3 anitos muitos dissabores com clientes. para mim, particularmente, é incompreensível que faça as pessoas estrabuchar e amuar tanto. até porque é uma razão muito pequena: tem p'raí 6 centímetros. vem em maços de 20. e cheira mal. ora, esta coisa de não se poder fumar em restaurantes não fui eu que inventei. mas há clientes que acham que fui. ouça lá, isto aqui pode-se fumar? -não senhor. e: a cara. aquela que me fazem sempre que eu lhes digo que não. posso trocar os cogumelos da minha pizza por dois ovos estrelados? não. posso sentar a minha família de 21 nesta mesa de 7? não. posso fumar? não. e eles franzem o sobrolho, entortam a boca e abrem as narinas. esta é a cara. e depois claro, bufam.
e desde que esta lei sem fumo saíu que tenho ouvido todo o tipo de desculpas para fumarem à mesa: está a chover. estou muito cansada para me levantar. tenho medo do escuro. ou eu dou-lhe uma notinha. não, não, não e não. meus amigos isto é uma lei e é para cumprir. fisga-se. para mim não há nada mais chato do que ter que me armar em agente da autoridade e estar a tomar conta de adultos. e alguns são tão insistentes que até me fazem fechar os olhos, cerrar os dentes e inspirar bem fundo. oh menina mas não se pode fumar? mas isto já 'tá vazio não se pode fumar? vá lá, deixe-me lá fumar só um cigarrinho. vá, ninguém se importa. não seja assim.
e o pior ainda são aqueles que chegam de calça verde pálido arregaçada, camisola aos ombros e crocodilo do lado esquerdo com as respectivas esposas que tresandam a chanel 5 e querem martinis com cerejas: temos reserva em nome de dótór francisco de alburqueque e vasconcelos. ao fim de duas horas os doutores já perderam todos a pose e o que eles querem mesmo é fumar um à mesa. e nem que eu diga não com a minha voz séria e profunda eles me ouvem. este é o tipo de pessoas que acha que não tem que receber ordens da empregadita. e acendem. eu vou lá e apagam. eu viro as costas e acendem. eu vou lá e apagam. à terceira digo que chamo a pj, a gnr, a psp e a brigada de trânsito. e eles levantam-se e vão lá para fora de gin tónico na mão. mas ainda acendem o cigarrito antes de sair do restaurante. e guardam o último bafo para quando voltam a entrar. uns verdadeiros filhos da outra é o que vos digo.
às vezes também há aqueles que vão fumar para a casa-de-banho. eu não percebia a lógica disto mas o meu namorado explicou-me que há por aí pessoas que gostam de fumar enquanto fazem o nº2. interessante. também não são raras as vezes que apanho senhoras a sairem de uma casa-de-banho quase em chamas. normalmente são as que deixam à mesa o marido e o bebé. aqui a coisa é mais óbvia: está a amamentar e o marido não alinha em leite com sabor a nicotina para o puto. ai as mulheres, essas matreiras.
mas agora que o verão se está a acabar a coisa só tem tendência para piorar. por isso, este ano, antes que saquem dos cigarros vou já enviar um email ao quintino aires a perguntar como é que devo lidar com clientes destes.
é que de birras de gaiatos percebe ele bem.

sábado, 28 de agosto de 2010

oh hans christian andersen anda cá abaixo ver isto!

agora que os turistas já estão todos a fazer as malas para voltar aos seus países sem graça e nos deixam aqui neste belo portugal que eu não trocava por nenhum outro, nem sequer pela madeira, é tempo de fazermos um resumo daquilo que podem aprender com eles.
com os amigos da terra do tio sam podem aprender a aumentar o preço médio de uma refeição. já se sabe que por lá é tudo à grande. eu nunca fui aos estados unidos mas aposto que lá as crianças comem menus big mac e recebem happy meals de brinde. aqui também pedem sempre primeiro uma entrada, depois um primeiro prato e depois um segundo. e coca-cola, coca-cola, coca-cola. ah espera, mas é zero 'tá bem. e depois sobremesa e depois cappuccinos. com as gorjetas também é igual. é sempre de 10 euros para cima se formos muito simpáticos. ou se formos umas bestas, que isso para eles não interessa nada.
com os amigos do samba podem aprender a cumprimentar a malta. os brasileiros quando entram num restaurante não dizem oi só a quem os recebe, dizem a todos os empregados por quem passam. além disso têm tendência para fazer aquilo que considero uma das coisas mais inteligentes a se fazer num restaurante: dar crédito ao empregado. e com uma simples pergunta: o que é que você recomenda? na verdade, não há coisinha melhor que possam fazer do que isto. é que nós sabemos mesmo muito. sabemos o que é bom, sabemos o que nunca foi, sabemos o que sai rápido, sabemos quantos dias tem o bife. e assim ainda evita que o empregado de mesa lhe diga no final de uma comidinha mais ou menos para a próxima tem que experimentar o entrecosto, é delicioso! como quem diz: se me tivesses perguntado eu dizia-te o que era bom antes de gastares 12 euros nesse peixe desenchabido.
com os nuestros hermanos podem aprender a não aquecer as cadeiras. aquilo é que é comer e andar. mas não aprendam mais nada com eles. por favor. a sério.
agora com les monsieurs et les madames podem aprender a poupar dinheiro em água. eu também nunca fui a frança mas duvido que haja por lá garrafas de água. ou pelos menos que eles as comprem. quando pergunto a um casal de franceses se querem beber alguma coisa assim que chegam, a resposta é invariavelmente a mesma: dois cópós de águá de la tórnéirá. e depois vinho de 30 euros a garrafa que é para compensar o sabor a cloro.
com os ingleses podem aprender a falar inglês com aquele sotaque bond delicioso. só.
mas ainda que os turistas tenham sempre alguma coisa para ensinar, também há alguns com coisinhas para aprender. como aquele casal de dinamarqueses que foi lá almoçar num destes domingos. eram as únicas pessoas dentro do restaurante: ele e ela. o filho dos dois, um bebé de pouco mais de 6 meses ficou no carrinho, estacionado à porta do restaurante. depois de alguma admiração, começámos a ficar chateados com a coisa. e lá fui eu: excuse me sir, pode trazer o carrinho para dentro do restaurante, não há problema nenhum. - ok, thank you. e nada. continuaram sentados no fresquinho do ar condicionado a beber cervejinha. o meu colega foi lá tirar os pedidos e voltou irritado: pô eu vou dar na cara deles! e lá fui eu: excuse me sir, se quiser eu desligo a música para não acordar o bebé. -no, that's ok, thank you. e lá fiquei eu e meu colega à porta do restaurante, cada um com um olho fofinho no bebé e outro de desdém nos pais até os senhores se meterem a andar. eu também nunca fui à dinamarca, mas agora já sei que os mais felizes da europa para além de legos, devem ter sinais de "bebé não entra" à porta dos estabelecimentos.
bem, já viram a ideia que dois dinamarqueses tótós nos fazem ter dos restantes 5 475 789? pois é, então portem-se bem lá fora ou paguem o silêncio dos empregados de mesa com boas gorjetas.
coisa que este casal claramente não fez.

ilustração de Manel Cruz

terça-feira, 10 de agosto de 2010

se a vida te dá limões faz limonada mas só se não te der muito trabalho.

já alguma vez pensaram o que aconteceria num restaurante se, em pleno agosto, os empregados decidissem todos pôr-se a andar? seria mau, muito mau. e se todos se decidissem pôr a andar menos um? seria menos mau, pois. mas e se esse um fosse você? epá isso seria muita falta de sorte né. pois foi.
foi mesmo muita falta de sorte que a minha compincha tenha decidido ir ser gamela em itália porque lá é que é buono. também foi falta de sorte que o outro tenha decidido que era hora de voltar à dieta do feijão com arroz lá no brasil. e que a outra tenha decidido simplesmente não aparecer mais, por razões que só ela e deus sabem.
e assim fiquei eu com três novos colegas a quem tenho de explicar tudinho: aqui é onde se mete as colheres, aqui é o lixo, aqui ficam os guardanapos, aqui as palhinhas, aqui o açúcar. e depois o restaurante enche. e eles começam: os guardanapos ficam onde? cadê o açúcar? fechas esta conta? não percebi o que o senhor pediu! onde estão as palhinhas? e a cozinha começa também: olha pediram isto mal! olha levaram isto mal! olha não percebo o que é que ele quer!
e depois preciso de uma grade de águas. e onde é que ficam? aiii, deixa estar que eu vou buscar!
e pedem 3 cappucinos: olha que estás a fazer isso mal não é assim. e como é que é? aiii, deixa estar que eu faço!
e olha estão a chamar na mesa 2. e que mesa é essa? aiii, deixa estar que eu vou lá!
e chega-se ao fim do turno e digo: ena, hoje foi puxadote! -aiii, não achei não!
agora quando chega a hora do lodo já não basta uma troca de olhares com o colega para ele perceber que o casal não quer sobremesa. não basta levantar o braço para o colega perceber que preciso de gelo no bar. e não basta eu meter-me aos gritos que ninguém percebe que eu preciso de ir mijar e alguém tem de me substituir.
e depois os clientes à espera. e os pratos trocados. e eu descabelada e a bufar que ainda por cima estão 32º às 10 da noite. e explico ao outro como se pede uma pizza e coiso e tal. e depois vem ele outra vez: explica de novo. meu: vens aqui a pizzas, metes à escolha, voltas atrás, metes os ingredientes, como não há cebola voltas atrás, metes azeitonas, vais às massas carregas no perguntar ao funcionário, voltas a pizzas pões a dividir, vens ao extras que estão na parte das sopas e metes extra queijo. mas qual é a dificuldade meu?!
enfim, isto com o tempo vai lá. mas entretanto já lá vão 23 horas de trabalho em dois dias, sem folga prevista. e eu já fartinha de ouvir o meu nome a toda a hora. e ainda é 3ª feira e já tenho mais dois calos e uma dor na espinha. e quando começo a ver espanhóis a entrar sem parar só me apetece é chorar e chamar pela mãezinha.
mas se eu sobreviver a isto já fico feliz. se isso acontecer até juro nunca dizer a um cliente que não há limonada só porque não me apetece espremer limões. não é que eu já tenha feito isso. nãã. nem pensar. euuu?! nunquinha.

sábado, 31 de julho de 2010

o que é que vai ser, hã ó imbecil?

eu sou uma miúda simples: visto calças de ganga rotas, vou de havaianas para todo o lado e gosto de comer em tascos. gosto de coisas simples e poucas formalidades. mas odeio, odeio mesmo, que pessoas que nunca me viram antes me digam . especialmente quando estou a trabalhar.
quando eu pergunto a um cliente se gostou do prato não gosto que ele se vire para mim e diga: hã?! ou quando eu pergunto ao cliente se vai querer sobremesa irrita-me que ele olhe para mim e diga: hã?. às vezes nem é o hã, é o tom. mas é uma implicação minha. não gosto de hãs. gosto de desculpe. gosto de diga. gosto de não percebi.
e quem me diz hã normalmente sai a perder. como aquele senhor que fazia anos e levou os amigos a jantar. fui ter com ele quando acabou e perguntei-lhe se lhe podia oferecer um digestivo. ao que ele respondeu: hãã?! - então? hã?! e era de graça meu. perguntei se queria mais alguma coisa.- respondi. ele pediu um beirão e um café. conclusão: o hã ficou-lhe por 4 euritos.
às vezes também há pessoas mal-humoradas que são malcriadas sem necessidade nenhuma. como aquele que entrou no restaurante com a mulher. mesa para dois?- perguntei. não, p'ra 25.- respondeu ele com aquele tom de voz conhecido como o tom mete nojo. se eu dissesse tudo o que me vem à cabeça- o que seria lindo de se ver- naquela altura teria perguntado àquele senhor que mal é que eu lhe tinha feito. é que apesar de me estar a ver pela primeira vez respondeu-me como quem responde à esposa ao fim de 26 anos de casamento. e isso não se faz.
confesso que antes de trabalhar em restauração não imaginava que houvesse no mundo, ou pelo menos em lisboa, tantas pessoas com falta de maneiras. pessoas que tratam as outras mal gratuitamente, no primeiro contacto. pessoas idiotas, basicamente.
um exemplo de pessoas que nunca ficam satisfeitas com aquilo que lhes é dito de boa vontade: um zé pediu-me uma sobremesa. ora, quando me pedem alguma coisa que demora mais tempo que o normal tenho sempre o cuidado de avisar. mas, às vezes, até por isso sou maltratada. é do conhecimento geral- ou não- que um coulant, vulgo petit gateau, demora algum tempo a fazer. se for ao forno, porque também há aqueles do pingo doce que uma gaja mete no microondas e em 20 segundos 'tá feito. o nosso não é desses. precisamente por isso avisei o senhor e a sua família que a sobremesa demora cerca de 15 minutos a sair porque é caseira e tem de ir ao forno. ao que ele, incomodado, respondeu: olhe menina, quem pedeee um petit gateau, sabeee o que é um petit gateau. não me está a ensinar nada que aqui não há ignorantes.
ai não? podia jurar que sim.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

e o sporting ganhou.

foi no dia do sporting com um tal de celtic. atendi 6 jovens senhores escoceses. muito simpáticos. tão simpáticos que cada um me deixou 10 euros.

por isso parabéns à bé que acertou em cheio nos 60 euros. e ao rui com 55. à suzzana com 65. e à paloma com o primeiro de muitos 50.

deixem as vossas moradas ok?

e obrigada a todos que passaram ontem pela fnac.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

pssht...ó menina - o livro antes do dvd.


meus amigos então é assim: vou oferecer de bandeja uns livritos. 4 livritos. basta que sejam os sortudos a ficar mais perto da resposta à interessante questão:
qual foi a melhor gorjeta que eu já recebi?
e sim. a resposta é em euros.
têm até 4ªf, dia 28.


terça-feira, 13 de julho de 2010

o homem serve, a obra nasce.

perguntava-me um amigo meu no outro dia: e desde quando é que uma empregada de mesa escreve livros? epá não sei...mas o meu 'tá feito. e é para vocês. desejam mais alguma coisa?




lançamento do livro pssht... ó menina! as aventuras de uma empregada de mesa, dia 28 de Julho, às 18h30, na fnac do vasco da gama. a apresentação do livro será feita pelo jornalista Carlos Pinto Coelho e contará com a presença do chef Ljubomir Stanisic.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

deixei de ser empregada de mesa.

mas só por 15 dias. vou ao algarve ver como vai o serviço de mesa por lá. e já agora aproveito e passo pela praia só para ver como é que aquilo anda. nada de especial, aposto.

domingo, 20 de junho de 2010

sem ovos não se fazem omoletes.

se há coisa que me tem vindo a incomodar é esta estória da crise. é crise para aqui, crise para ali. crise, crise, crise. já não posso ouvir falar nela. e a mim a crise afecta-me directamente em dois pontos muito importantes da minha vida: a subsistência deste meu querido blogue e a minha sanidade mental. é que cada vez que se ouve a palavra crise desaparece um cliente lá do restaurante. e tantos que já se perderam. o senhor carbonara. a senhora descafeinado, pingado, com adoçante, em chávena escaldada. a rapariga salada com o molho à parte. nunca mais foram vistos. e, para piorar, este tempo de crise -tenho de parar de dizer crise- custa literalmente a passar. os turnos são longos e penosos. vão-se limpando copos vezes sem conta. vão-se tirando manchas invisíveis a olho nú das colheres de café. vão-se tendo aulas de bangladeshiano na copa.
e quando entra um cliente ficamos todos em sentinela como se o restaurante tivesse ficado cheio. eu vou lá! não, eu vou lá. não, tu foste ao outro. olhem para nós colegas. no que nós nos tornámos. e pensar que já tivemos tantos. e por que é que lutamos nós? por pessoas que vêm dividir um prato do dia, pedem dois copos de água da torneira, discutem porque não querem pagar o pãozinho do couvert que comeram para encher o bucho e nem sequer deixam moedinhas pretas para a nossa gorjeta em recessão.
longe vão os bons tempos de lodo em que as pessoas faziam fila à porta e nos chamavam de 5 em 5 minutos a perguntar se ainda faltava muito. era difícil, mas gratificante. as pessoas eram chatas, mas faziam o tempo passar depressa. e quando se iam todos embora e tinhamos de varrer e limpar já só nos conseguiamos rir porque nos doía tudo. e contávamos uns aos outros todas as coisas parvas que nos tinham acontecido nessa noite- o que para mim funcionava como uma espécie de brainstorming. e ficávamos todos com a sensação de dever cumprido. não salvávamos vidas, não. mas deixávamos muito boa gente satisfeita. até os chatos. e sem nunca os termos tratado como mereciam. prova superada.
e é a adrenalina que o lodo nos dá que o faz uma coisa tão bonita. quando o restaurante está muito cheio e os empregados andam para lá e para cá sem se atropelarem parece uma dança. um mete-se de lado, o outro levanta uma bandeja cheia de copos sujos por cima da cabeça, o outro desliza com 3 pratos num braço e ainda diz para o outro que está a tirar o pedido um fabuloso atrás de ti. e isto, meus amigos, é lindo. eu sei que provavelmente nunca deram conta porque estão ocupados a dar ao garfo, mas ir a um restaurante cheio é como ir a um bailado. se os empregados forem coordenados, claro. senão vai parecer uma amostra manhosa de kuduro.
por isso, já sabe. em vez de se meter a pagar obscenidades para ver gajos de collants a fazerem um retiré ou um sur le cou-de-pied, venha mas é a um restaurante ver a delicadeza de um empregado de mesa a levar 5 pratos de uma só vez sem pestanejar. e ainda tem direito a jantar. vá, faça lá uma reserva. aproveite que isto 'tá barato com esta estória da crise. epá, menos um.

domingo, 18 de abril de 2010

eu, empregada de mesa, me confesso.

sempre que encontro um ex-colega de escola ou um tio daqueles que só vejo na altura do natal ou uma vizinha de quem nunca soube o nome, a pergunta é sempre a mesma: e então, o que é que andas a fazer agora? ah e tal sou empregada de mesa. e depois, claro, as interrogações de sempre. então, mas não andaste a estudar? não tiraste um curso? tens de andar a servir mesas?
e eu, com a minha melhor cara de consternada digo o que me compete: pois é já viste, andei eu a estudar para isto. e o estado não me ajuda. e o mercado está lotado. e só querem é estagiários. e paguei eu tantas propinas. enfim, é o país que temos.
pois, meus amigos, esta é a minha confissão:
há 4 anos eu sabia o nome dos melhores jornalistas e em que jornal é que trabalhavam. hoje sei o nome dos melhores chefes e em que restaurante é que trabalham.
há 4 anos eu lia o público, a sábado e o courier internacional. hoje leio a revista do recheio, as críticas de restaurantes da time out e a revista do jamie. e tudo com o mesmo entusiasmo.
há 4 anos eu via a grande reportagem, o 60 minutos e o jornal da noite. hoje vejo o top chef, o hell's kitchen do ramsay e o no reservations, do bourdain.
há 4 anos eu convivia com jornalistas e falavamos dos media e do governo. hoje convivo com chefes, copeiros e empregados de mesa. falamos de clientes e de comida e eu nem sei que senhores estão no governo. e nem me interessa.
há 4 anos eu ia todos os dias ao carga de trabalhos ver o que se arranjava. hoje vou todos os dias ao restaurante aos pontos, ver quantos pontos tem o meu. e já não me lembro da minha password do carga.
há 4 anos eu jogava ao sudoku. hoje jogo àquele que há na net em que eu sou uma empregada de mesa e tenho que levantar mesas e atender clientes, sem nenhum deles se zangar e ir embora. ainda não passei do 2º nível.
há 4 anos eu era solteira e infeliz. hoje vivo com um chefe de cozinha. feliz da vida.
por isso, a próxima vez que me encontrarem na rua e eu fizer o discurso convincente de que este país é assim e blá blá blá e ninguém me dá uma oportunidade e o mundo está contra mim, já sabem que as coisas não são bem assim. é que eu digo-vos isso mais para vos agradar.
é que a verdade é esta: eu gosto de servir à mesa. pronto, já disse.

domingo, 21 de março de 2010

coisas que eu não faço mas que às vezes me apetecia mesmo fazer porque há pessoas insuportáveis.

eu não me importo que as pessoas reclamem. nada disso. aliás, eu reclamo imenso. importo-me sim que as pessoas não saibam reclamar. porque saber reclamar, podem não acreditar, é uma arte. reclamar porque o bife está mal passado, quando me pediu para ser tipo sola, é mais do que justo. mas não é preciso histerismos. é só um: ah e tal isto não 'tá bem não se importa. claro que não. e se ainda me disser aquela que eu adoro do: eu sei que a culpa não é sua então se calhar ainda lhe faço um desconto pelo erro. agora se vamos entrar por outro caminho a coisa fica mais difícil. para mim e para o cliente. ou seja, complica a vida a todos por isso parece-me que não vale a pena. como o outro senhor que me chamou quando eu estava no lodo* para me dizer que queria outro café porque o seu tinha um bocadinho de ...café. foi assim mesmo que ele me disse: olhe lá traga-me mas é outro café porque este tem aqui café. como não olhou para mim nem por um segundo não viu a cara que eu fiz de não estou bem a perceber. mas depois percebi: a sua chávena tinha uma pingo de café a escorrer. aquela pinga que normalmente escorre quando se tira um café sem grandes preciosismos. tenho treinado horas a fio para tirar cafés com a chávena imaculada: continuo a falhar algumas.
reclamar por tudo e por nada, reclamar quando se sabe que não se tem razão ou reclamar com maus modos é mesmo muito chato. a evitar, portanto. além disso há aquela velha máxima do "don´t mess with people that handle your food". não é que eu alguma vez tenha tirado proveito do facto de ter acesso àquilo que as senhoras tias metem na boca. nada disso. o pior que já fiz foi pedir ao chefe para não ter pressas. eu sei: não é bonito deixar as pessoas à espera, mas isto também é só para aqueles que depois de reclamarem comigo- que até fui tão prestável- porque a cozinha fez uma asneira ainda me atiram com o simpático será que conseguiu perceber? percebi muito bem: deixa-te estar sentado para não te cansares.
por isso se tem medo de reclamar porque acha que vamos, sei lá, cuspir para o seu prato ou porque vamos acidentalmente deixar cair o seu bife no chão, aviso já que é muito pouco provável que isso vá acontecer. é mais um mito que outra coisa. mas ainda assim, reclame com modos, não vá o diabo tecê-las.
*lodo- quando o restaurante está tão cheio que não sabemos por onde havemos de começar.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

o segredo de um bom descafeínado

existem regras simples que vocês- clientes, podem seguir para se tornarem numa pessoa importante para nós- empregados de mesa. que benefícios é que isso vos vai trazer? muito poucos. mas mais vale ser importante do que ser apenas mais um. no meu caso clientes importantes têm sempre vantagens: quando me pedem uma sobremesa que está no limite dos seus dias aviso-os discretamente que se calhar apetece-lhes outra; reservo-lhes sempre a melhor mesa, mesmo quando já estão todas reservadas e quando me pedem um descafeínado chego mesmo a limpar o manípulo e a tirar os restos de cafeína que estão para lá. e se isto não chega para vos convencer então não sei.
o que nós valorizamos num cliente não é só, ao contrário do que possa pensar, as boas gorjetas que eles nos deixam. boas, repito. mas no que toca a gorjetas é muito fácil convencer-nos. ora então cá vai.
lição número um: de vez em quando deixe uma notinha de 5. pode não deixar gorjeta durante um mês seguido, mas se depois deixar uma notinha já nos tem no papo. 5 euros em moedas não passa. tem de ser a notinha.
lição número dois: quando estivermos a entregar-lhe o seu prato desvie-se. não precisa de agradecer, basta que tire os cotovelos da mesa ou se incline para trás. muito obrigado. tentar enfiar pratos quentes entre cotovelos preguiçosos é muito tetris para mim. e irrita.
lição número três: peça tudo de uma vez. traga-me um café. cá está. agora traga-me a conta. cá está. agora o multibanco. cá está. isto seria bom, mas só se eu ganhasse ao quilómetro. portanto tente lá outra vez. olhe traga-me um café e a conta, vou pagar com multibanco. e sou eu que agradeço.
lição número quatro: se fizer uma reserva apareça a horas. se não tiver feito não refile muito com a mesa que lhe conseguimos arranjar. se entrar num restaurante que está quase vazio não queira sentar-se na única mesa que está suja. se faltarem 10 minutos para fechar, não entre sequer. um cliente a 10 minutos do fim é como estar quase lá e depois não conseguir. e isso irrita, já se sabe.
lição número cinco: pergunte-nos o nome. pode-nos continuar a chamar metendo o dedinho no ar, mas não deixa de ser simpático.
e que tal, não parece difícil, pois não? e vai ver que para a próxima o arroz doce já não vai estar tão duro.