domingo, 18 de abril de 2010

eu, empregada de mesa, me confesso.

sempre que encontro um ex-colega de escola ou um tio daqueles que só vejo na altura do natal ou uma vizinha de quem nunca soube o nome, a pergunta é sempre a mesma: e então, o que é que andas a fazer agora? ah e tal sou empregada de mesa. e depois, claro, as interrogações de sempre. então, mas não andaste a estudar? não tiraste um curso? tens de andar a servir mesas?
e eu, com a minha melhor cara de consternada digo o que me compete: pois é já viste, andei eu a estudar para isto. e o estado não me ajuda. e o mercado está lotado. e só querem é estagiários. e paguei eu tantas propinas. enfim, é o país que temos.
pois, meus amigos, esta é a minha confissão:
há 4 anos eu sabia o nome dos melhores jornalistas e em que jornal é que trabalhavam. hoje sei o nome dos melhores chefes e em que restaurante é que trabalham.
há 4 anos eu lia o público, a sábado e o courier internacional. hoje leio a revista do recheio, as críticas de restaurantes da time out e a revista do jamie. e tudo com o mesmo entusiasmo.
há 4 anos eu via a grande reportagem, o 60 minutos e o jornal da noite. hoje vejo o top chef, o hell's kitchen do ramsay e o no reservations, do bourdain.
há 4 anos eu convivia com jornalistas e falavamos dos media e do governo. hoje convivo com chefes, copeiros e empregados de mesa. falamos de clientes e de comida e eu nem sei que senhores estão no governo. e nem me interessa.
há 4 anos eu ia todos os dias ao carga de trabalhos ver o que se arranjava. hoje vou todos os dias ao restaurante aos pontos, ver quantos pontos tem o meu. e já não me lembro da minha password do carga.
há 4 anos eu jogava ao sudoku. hoje jogo àquele que há na net em que eu sou uma empregada de mesa e tenho que levantar mesas e atender clientes, sem nenhum deles se zangar e ir embora. ainda não passei do 2º nível.
há 4 anos eu era solteira e infeliz. hoje vivo com um chefe de cozinha. feliz da vida.
por isso, a próxima vez que me encontrarem na rua e eu fizer o discurso convincente de que este país é assim e blá blá blá e ninguém me dá uma oportunidade e o mundo está contra mim, já sabem que as coisas não são bem assim. é que eu digo-vos isso mais para vos agradar.
é que a verdade é esta: eu gosto de servir à mesa. pronto, já disse.