domingo, 20 de junho de 2010

sem ovos não se fazem omoletes.

se há coisa que me tem vindo a incomodar é esta estória da crise. é crise para aqui, crise para ali. crise, crise, crise. já não posso ouvir falar nela. e a mim a crise afecta-me directamente em dois pontos muito importantes da minha vida: a subsistência deste meu querido blogue e a minha sanidade mental. é que cada vez que se ouve a palavra crise desaparece um cliente lá do restaurante. e tantos que já se perderam. o senhor carbonara. a senhora descafeinado, pingado, com adoçante, em chávena escaldada. a rapariga salada com o molho à parte. nunca mais foram vistos. e, para piorar, este tempo de crise -tenho de parar de dizer crise- custa literalmente a passar. os turnos são longos e penosos. vão-se limpando copos vezes sem conta. vão-se tirando manchas invisíveis a olho nú das colheres de café. vão-se tendo aulas de bangladeshiano na copa.
e quando entra um cliente ficamos todos em sentinela como se o restaurante tivesse ficado cheio. eu vou lá! não, eu vou lá. não, tu foste ao outro. olhem para nós colegas. no que nós nos tornámos. e pensar que já tivemos tantos. e por que é que lutamos nós? por pessoas que vêm dividir um prato do dia, pedem dois copos de água da torneira, discutem porque não querem pagar o pãozinho do couvert que comeram para encher o bucho e nem sequer deixam moedinhas pretas para a nossa gorjeta em recessão.
longe vão os bons tempos de lodo em que as pessoas faziam fila à porta e nos chamavam de 5 em 5 minutos a perguntar se ainda faltava muito. era difícil, mas gratificante. as pessoas eram chatas, mas faziam o tempo passar depressa. e quando se iam todos embora e tinhamos de varrer e limpar já só nos conseguiamos rir porque nos doía tudo. e contávamos uns aos outros todas as coisas parvas que nos tinham acontecido nessa noite- o que para mim funcionava como uma espécie de brainstorming. e ficávamos todos com a sensação de dever cumprido. não salvávamos vidas, não. mas deixávamos muito boa gente satisfeita. até os chatos. e sem nunca os termos tratado como mereciam. prova superada.
e é a adrenalina que o lodo nos dá que o faz uma coisa tão bonita. quando o restaurante está muito cheio e os empregados andam para lá e para cá sem se atropelarem parece uma dança. um mete-se de lado, o outro levanta uma bandeja cheia de copos sujos por cima da cabeça, o outro desliza com 3 pratos num braço e ainda diz para o outro que está a tirar o pedido um fabuloso atrás de ti. e isto, meus amigos, é lindo. eu sei que provavelmente nunca deram conta porque estão ocupados a dar ao garfo, mas ir a um restaurante cheio é como ir a um bailado. se os empregados forem coordenados, claro. senão vai parecer uma amostra manhosa de kuduro.
por isso, já sabe. em vez de se meter a pagar obscenidades para ver gajos de collants a fazerem um retiré ou um sur le cou-de-pied, venha mas é a um restaurante ver a delicadeza de um empregado de mesa a levar 5 pratos de uma só vez sem pestanejar. e ainda tem direito a jantar. vá, faça lá uma reserva. aproveite que isto 'tá barato com esta estória da crise. epá, menos um.