sábado, 28 de agosto de 2010

oh hans christian andersen anda cá abaixo ver isto!

agora que os turistas já estão todos a fazer as malas para voltar aos seus países sem graça e nos deixam aqui neste belo portugal que eu não trocava por nenhum outro, nem sequer pela madeira, é tempo de fazermos um resumo daquilo que podem aprender com eles.
com os amigos da terra do tio sam podem aprender a aumentar o preço médio de uma refeição. já se sabe que por lá é tudo à grande. eu nunca fui aos estados unidos mas aposto que lá as crianças comem menus big mac e recebem happy meals de brinde. aqui também pedem sempre primeiro uma entrada, depois um primeiro prato e depois um segundo. e coca-cola, coca-cola, coca-cola. ah espera, mas é zero 'tá bem. e depois sobremesa e depois cappuccinos. com as gorjetas também é igual. é sempre de 10 euros para cima se formos muito simpáticos. ou se formos umas bestas, que isso para eles não interessa nada.
com os amigos do samba podem aprender a cumprimentar a malta. os brasileiros quando entram num restaurante não dizem oi só a quem os recebe, dizem a todos os empregados por quem passam. além disso têm tendência para fazer aquilo que considero uma das coisas mais inteligentes a se fazer num restaurante: dar crédito ao empregado. e com uma simples pergunta: o que é que você recomenda? na verdade, não há coisinha melhor que possam fazer do que isto. é que nós sabemos mesmo muito. sabemos o que é bom, sabemos o que nunca foi, sabemos o que sai rápido, sabemos quantos dias tem o bife. e assim ainda evita que o empregado de mesa lhe diga no final de uma comidinha mais ou menos para a próxima tem que experimentar o entrecosto, é delicioso! como quem diz: se me tivesses perguntado eu dizia-te o que era bom antes de gastares 12 euros nesse peixe desenchabido.
com os nuestros hermanos podem aprender a não aquecer as cadeiras. aquilo é que é comer e andar. mas não aprendam mais nada com eles. por favor. a sério.
agora com les monsieurs et les madames podem aprender a poupar dinheiro em água. eu também nunca fui a frança mas duvido que haja por lá garrafas de água. ou pelos menos que eles as comprem. quando pergunto a um casal de franceses se querem beber alguma coisa assim que chegam, a resposta é invariavelmente a mesma: dois cópós de águá de la tórnéirá. e depois vinho de 30 euros a garrafa que é para compensar o sabor a cloro.
com os ingleses podem aprender a falar inglês com aquele sotaque bond delicioso. só.
mas ainda que os turistas tenham sempre alguma coisa para ensinar, também há alguns com coisinhas para aprender. como aquele casal de dinamarqueses que foi lá almoçar num destes domingos. eram as únicas pessoas dentro do restaurante: ele e ela. o filho dos dois, um bebé de pouco mais de 6 meses ficou no carrinho, estacionado à porta do restaurante. depois de alguma admiração, começámos a ficar chateados com a coisa. e lá fui eu: excuse me sir, pode trazer o carrinho para dentro do restaurante, não há problema nenhum. - ok, thank you. e nada. continuaram sentados no fresquinho do ar condicionado a beber cervejinha. o meu colega foi lá tirar os pedidos e voltou irritado: pô eu vou dar na cara deles! e lá fui eu: excuse me sir, se quiser eu desligo a música para não acordar o bebé. -no, that's ok, thank you. e lá fiquei eu e meu colega à porta do restaurante, cada um com um olho fofinho no bebé e outro de desdém nos pais até os senhores se meterem a andar. eu também nunca fui à dinamarca, mas agora já sei que os mais felizes da europa para além de legos, devem ter sinais de "bebé não entra" à porta dos estabelecimentos.
bem, já viram a ideia que dois dinamarqueses tótós nos fazem ter dos restantes 5 475 789? pois é, então portem-se bem lá fora ou paguem o silêncio dos empregados de mesa com boas gorjetas.
coisa que este casal claramente não fez.

ilustração de Manel Cruz

terça-feira, 10 de agosto de 2010

se a vida te dá limões faz limonada mas só se não te der muito trabalho.

já alguma vez pensaram o que aconteceria num restaurante se, em pleno agosto, os empregados decidissem todos pôr-se a andar? seria mau, muito mau. e se todos se decidissem pôr a andar menos um? seria menos mau, pois. mas e se esse um fosse você? epá isso seria muita falta de sorte né. pois foi.
foi mesmo muita falta de sorte que a minha compincha tenha decidido ir ser gamela em itália porque lá é que é buono. também foi falta de sorte que o outro tenha decidido que era hora de voltar à dieta do feijão com arroz lá no brasil. e que a outra tenha decidido simplesmente não aparecer mais, por razões que só ela e deus sabem.
e assim fiquei eu com três novos colegas a quem tenho de explicar tudinho: aqui é onde se mete as colheres, aqui é o lixo, aqui ficam os guardanapos, aqui as palhinhas, aqui o açúcar. e depois o restaurante enche. e eles começam: os guardanapos ficam onde? cadê o açúcar? fechas esta conta? não percebi o que o senhor pediu! onde estão as palhinhas? e a cozinha começa também: olha pediram isto mal! olha levaram isto mal! olha não percebo o que é que ele quer!
e depois preciso de uma grade de águas. e onde é que ficam? aiii, deixa estar que eu vou buscar!
e pedem 3 cappucinos: olha que estás a fazer isso mal não é assim. e como é que é? aiii, deixa estar que eu faço!
e olha estão a chamar na mesa 2. e que mesa é essa? aiii, deixa estar que eu vou lá!
e chega-se ao fim do turno e digo: ena, hoje foi puxadote! -aiii, não achei não!
agora quando chega a hora do lodo já não basta uma troca de olhares com o colega para ele perceber que o casal não quer sobremesa. não basta levantar o braço para o colega perceber que preciso de gelo no bar. e não basta eu meter-me aos gritos que ninguém percebe que eu preciso de ir mijar e alguém tem de me substituir.
e depois os clientes à espera. e os pratos trocados. e eu descabelada e a bufar que ainda por cima estão 32º às 10 da noite. e explico ao outro como se pede uma pizza e coiso e tal. e depois vem ele outra vez: explica de novo. meu: vens aqui a pizzas, metes à escolha, voltas atrás, metes os ingredientes, como não há cebola voltas atrás, metes azeitonas, vais às massas carregas no perguntar ao funcionário, voltas a pizzas pões a dividir, vens ao extras que estão na parte das sopas e metes extra queijo. mas qual é a dificuldade meu?!
enfim, isto com o tempo vai lá. mas entretanto já lá vão 23 horas de trabalho em dois dias, sem folga prevista. e eu já fartinha de ouvir o meu nome a toda a hora. e ainda é 3ª feira e já tenho mais dois calos e uma dor na espinha. e quando começo a ver espanhóis a entrar sem parar só me apetece é chorar e chamar pela mãezinha.
mas se eu sobreviver a isto já fico feliz. se isso acontecer até juro nunca dizer a um cliente que não há limonada só porque não me apetece espremer limões. não é que eu já tenha feito isso. nãã. nem pensar. euuu?! nunquinha.