quarta-feira, 29 de setembro de 2010

à espera do cavaco.

eu só tenho uma folga por semana. normalmente, na minha folga tento fazer apenas aquilo que me apetece. a maior parte das vezes não consigo. tenho de limpar a casa, visitar a mãe, visitar o pai, encher a despensa e o resto do tempo tento desfrutar do meu sofá porque me custou um ordenado e acho que tenho de o fazer render. ainda assim ter uma folga é genial. é um dia sem talheres, sem pedidos, sem uniforme. mas, mesmo na minha folga pergunto-me sempre o que se passará por lá. quando estou a almoçar com a minha mãe, pergunto-me se estará cheio, quando estou a passar a ferro à hora do jantar, pergunto-me se estará cheio. quando encosto a cabeça na almofada para dormir, pergunto-me se ainda estará por lá um cliente daqueles que não nos deixa ir embora. a maior parte das vezes passa-se por lá o mesmo que se passa em todos os outros dias: absolutamente nada de novo. o dia de ontem foi igual ao de antes de ontem e será igual ao de amanhã. mais cliente chato, menos cliente chato, é assim que a coisa funciona. mas, como nunca se sabe, pergunto sempre que chego da minha folga como é que foi ontem? já sabendo que a resposta é o mesmo nada de especial de sempre.
mas afinal, eu não devo ser uma pessoa lá com muita sorte. é que, há uns dias atrás, quando perguntei como é que foi ontem? ninguém me disse nada de especial. disseram-me antes foi bué da fixe, o socratés veio cá jantar! ora, para mim, que até sou uma pessoa que tem um certo orgulho nisto de servir à mesa, isto não me parece nada justo. então eu passo lá tantas horas e o senhor vai lá quando eu não estou? quer dizer que enquanto eu estava a limpar a minha casa-de-banho eu perdi uma hipótese num milhão e agora já não vou poder dizer aos meus netos sabem que a avozinha antes de ganhar o euromilhões era empregada de mesa e serviu o primeiro-ministro? bolas. e havia seguranças. e paparazzis. e quando vi o que ele gastou nem perguntei quanto deixou de gorjeta. a dor já era muita. e eu nem gosto assim muito do senhor.
enfim, não foi porreiro, pá. mas para que isto não volte a acontecer gostava só de deixar então aqui uma mensagem: senhor presidente cavaco, poderia fazer o favor de apontar aí na sua agenda presidencial que a minha folga é à quinta-feira? quin-ta. obrigadinho.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

há um empregado de mesa em cada um de vocês. mesmo que sejam muito chiques.

eu tive uma colega que se chamava samantha. este não é um nome falso. o nome dela era samantha e eu não consigo inventar outro nome para a samantha. tem que ser samantha. a samantha era uma menina que decidiu trabalhar no verão para ganhar alguns trocados para vestidos, cintos e caipirinhas no bbc. ela não precisava de trabalhar. era só uma menina rica e mimada a fazer frente aos papás.
a primeira vez que vimos a samantha foi na entrevista. ela estava sentada numa mesa com o gerente e nós andávamos em volta a limpar o restaurante. e à escuta. e foi logo aí que lhe tirámos a pinta: ela no seu sobretudo branco imaculado, baton vermelho e cabelo ruivo fazia mais perguntas ao gerente do que ele a ela. o momento foi tão hilariante que no final todos foram perguntar ao gerente se ele tinha conseguido o emprego. mas, apesar de tudo isto, ele contratou-a como a nova empregada de mesa. era gira e isso, muitas das vezes, bastava-lhe.
eu e os meus colegas já sabiamos como é que aquilo ia ser: nós eramos o gangue e ela era a betinha que não devia fazer parte da história. e foi com essa cara que a recebemos no seu primeiro turno. e, na primeira vez que fiquei frente a frente com a samantha, ela olhou-me de alto a baixo e disse-me: olha, gosto do teuuu...casaco. e depois comemos, vestimos os uniformes e preparamo-nos para a guerra. e depois o gerente: tu ficas na porta, vocês ficam nas mesas e tu ficas no bar. a samantha fica contigo para aprender. comigo? mas que mal é que fiz? e as minhas colegas riram-se de mim porque eu fiquei encalhada com a samantha. ao fim de 30 minutos num bar com 4 m2 eu já não podia vê-la à frente. e ela estava sempre minha à frente. eu, no lodo, não tinha a mínima vontade -ou tempo- de ensinar a betinha a tirar um café. e, no fim da noite, descabelada, transpirada e esfomeada olhei para a samantha: não tinha um fio de cabelo fora do sítio. vá samantha, agora vais-me ajudar a limpar isto. limpa os copos e o lavatório. 2 minutos depois diz ela com a cara mais enojada do mundo: desculpa...como é que queres que eu limpe isto?- isto era uma pia cheia de restos de menta dos mojitos, limas moídas das caipirinhas, palhinhas usadas e cascas de limão dos martinis. - como assim? limpas. atiras isso para o lixo e lavas. 2 minutos depois ela chega ao pé de mim e diz: desculpa...não percebi. queres que eu mexa naquilo? eu, no meu pior dia de tpm, cheguei à pia agarrei uma mão cheia do que para lá estava, apontei-a à cara da samantha e disse: fazes assim! pegas nisto, atiras para o lixo e depois lavas. alguma dúvida? -não, mas...podes-me arranjar uma luva? eu não vou tocar...nisso.
no dia seguinte a samantha ficou na sala. de camisa, avental, leggings e botas de salto alto. para lá e para cá. o barulho das botas da samantha enlouquecia-nos a pouco e pouco. ploc ploc ploc. o gerente recebeu tantos olhares de "oh lhe dizes que amanhã tem que vir de ténis ou eu passo-me da cabeça" dos meus colegas que no fim do turno foi falar com ela. não teria sido preciso: no final da noite o calo que ela tinha no pé tinha chegado para ela entender. os dias foram passando e a samantha foi resistindo aos meus dias de mau humor, aos gritos dos meus colegas, aos raspanetes do gerente. e ao fim de 3 semanas já tinhamos, finalmente, criado um monstro. a perfeita samantha, aquela miúda que parava de levantar pratos de 2 em 2 minutos para retocar o gloss, era agora uma empregada de mesa: descabelada, suada, vermelha, de avental sujo, sem luvas e a dar o litro. e limpava as casas-de-banho como ninguém. e era a melhor a despachar os clientes.
mas, ao fim de mais uma semana, a samantha decidiu ir-se embora. foi um mês de trabalho que lhe deu um ordenado que lhe chegou para o que queria. e também me chegou a mim um mês para perceber que, se dermos uma oportunidade às pessoas, elas às vezes revelam-se melhores do que alguma vez imaginámos.
quando a samantha foi buscar o salário já era aquela menina betinha de novo. de casaco vermelho, pérolas e sabrinas. mas quando eu me despedi dela e ela sorriu eu vi muito além do que ela mostrava. e antes de sair porta fora ela ainda olhou para mim de alto a baixo e disse: olha, gosto do teu...avental.
ilustração de Manel Cruz

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

a velha e debatida questão.

devo eu, empregada de mesa, avisar a senhora cliente que tem a bela da cueca -ou algo mais- à mostra ou fico calada, faço o meu trabalho e deixo-a ser a atracção esquisita da noite?

ora, ajudem-nos lá com esta.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

oh menina que coisa horrível é esta com que eu acabei de me deliciar?

cada vez mais me convenço que os clientes não sabem como fazer as coisas porque nunca ninguém lhes explicou. ora isso acaba aqui e agora. estas dicas são preciosas por isso guardem-nas para a vida. há, evidentemente, muita coisa que os donos dos restaurantes não querem que se saiba. por exemplo... deixa cá ver: um prato que custa 12 euros tem um custo de 90 cêntimos. a segunda-feira é o pior dia para se comer fora. e adiante. mas lá está, se não querem que isto se saiba, também não sou eu que vou dizer. o que interessa aqui são pequenas coisas que toda a gente tem o direito de saber. e assim chegamos ao cenário nº1:
a sobremesa.
é 2ªfeira e vai almoçar fora com a sua amiga. comem uma saladinha, bebem água fresca, conversa para aqui, conversa para ali e depois chego eu. vão desejar sobremesa? ai sim, são dois pudins. lamento senhoras, mas só tenho um pudim. cá está: dilema nº1. quem fica com o pudim? resposta certa: ninguém. se o restaurante 'tá vazio e só há um pudim cá está uma boa dica de que não é de hoje. será de domingo? de sábado? o melhor é escolher outra. ser um pudim muito bom que foi feito ontem e vendeu-se quase todo ao jantar, é possível. mas é pouco provável. o mais certo é ser só um pudim ressequido. e não tem mal nenhum perguntar ao empregado o que é que tem de hoje. estranho é discutirem por aquele pudim velho que eu já vejo no frigorifico há 3 ou 4 dias. e o mais certo é dar em reclamação. e assim chegamos ao cenário nº2:
a reclamação.
a família vai a um restaurante para um jantar descontraído de fim-de-semana. pedem os pratos, as bebidas, comem e bebem. no final vou eu levantar os pratinhos. olhe, desculpe! diga lá ao chefe que este risotto estava muito mau. péssimo. até o meu marido faz melhor que isto.
eu olho para a senhora. olho para o marido. e olho para o prato: só faltava ser lambido. nem um grãozinho de arbóreo para contar a história. e lá vou eu para a cozinha, que tem uma grande janela. a senhora e a família dela estão todos a olhar para mim através do vidro. a confirmar que eu vou reclamar. e vêem-me a falar, a ouvir com ar de interessada e a dar meia volta. e depois vou à mesa: já comuniquei ao chefe. e a senhora faz o seu ar triunfante enquanto olha para o chefe, que sorri de volta. ora, se esta senhora e a sua família soubessem ler os lábios teriam percebido que eu não comuniquei ao chefe absolutamente nada. fui lá e disse: então e o que é que achas desta cena do carlos cruz? ele respondeu. eu ouvi interessada. e dei meia volta. e perguntam vocês: mas porquê?
ora, por isto: para mim comer tudo e reclamar não tem valor. eu ia reclamar, o chefe ia ficar nervoso, ia ficar horas a pensar o que tinha feito de errado naquele risotto, ia-se distraír e ia fazer porcaria. e tudo porque uma senhora comeu tudo. há até pessoas que, em situações idênticas, reclamam depois terem de pagar pelo prato. mas o senhor pediu a algum dos meus colegas para trocar o prato? não. e consumiu-o? sim. então peço desculpa senhor, mas as normas da casa obrigam-me a cobrar. sim, eu às vezes invento normas da casa. mas parece-me absurdo eu ir à zara comprar um vestido, levá-lo a uma festa, passear-me com ele e depois ir à loja reclamar que afinal não me fica bem. era bom. mas também era parvo.
por isso já sabe, se quer que o chefe ouça a sua reclamação, reclame antes de comer tudo.
mas há excepções, claro. clientes habituais que comem sempre a mesma coisa e que um dia, de prato limpo, me dizem: olhe diga lá ao chefe que isto hoje não estava grande coisa. e eu digo ah e tal podia ter dito e ele diz ah e tal deixe lá. e aí sim eu vou à cozinha, transmito a mensagem e pedincho uma sobremesa para compensar o senhor. epá, pode ser aquele pudim que 'tá aí há 4 dias.
e então, sou querida ou não sou?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

doutor preciso de ajuda: os meus clientes não fazem o que lhes digo, batem o pé, choram, gritam e atiram-se para o chão.

esta é uma matéria sensível. eu sei disso, porque já me causou ao longo destes 3 anitos muitos dissabores com clientes. para mim, particularmente, é incompreensível que faça as pessoas estrabuchar e amuar tanto. até porque é uma razão muito pequena: tem p'raí 6 centímetros. vem em maços de 20. e cheira mal. ora, esta coisa de não se poder fumar em restaurantes não fui eu que inventei. mas há clientes que acham que fui. ouça lá, isto aqui pode-se fumar? -não senhor. e: a cara. aquela que me fazem sempre que eu lhes digo que não. posso trocar os cogumelos da minha pizza por dois ovos estrelados? não. posso sentar a minha família de 21 nesta mesa de 7? não. posso fumar? não. e eles franzem o sobrolho, entortam a boca e abrem as narinas. esta é a cara. e depois claro, bufam.
e desde que esta lei sem fumo saíu que tenho ouvido todo o tipo de desculpas para fumarem à mesa: está a chover. estou muito cansada para me levantar. tenho medo do escuro. ou eu dou-lhe uma notinha. não, não, não e não. meus amigos isto é uma lei e é para cumprir. fisga-se. para mim não há nada mais chato do que ter que me armar em agente da autoridade e estar a tomar conta de adultos. e alguns são tão insistentes que até me fazem fechar os olhos, cerrar os dentes e inspirar bem fundo. oh menina mas não se pode fumar? mas isto já 'tá vazio não se pode fumar? vá lá, deixe-me lá fumar só um cigarrinho. vá, ninguém se importa. não seja assim.
e o pior ainda são aqueles que chegam de calça verde pálido arregaçada, camisola aos ombros e crocodilo do lado esquerdo com as respectivas esposas que tresandam a chanel 5 e querem martinis com cerejas: temos reserva em nome de dótór francisco de alburqueque e vasconcelos. ao fim de duas horas os doutores já perderam todos a pose e o que eles querem mesmo é fumar um à mesa. e nem que eu diga não com a minha voz séria e profunda eles me ouvem. este é o tipo de pessoas que acha que não tem que receber ordens da empregadita. e acendem. eu vou lá e apagam. eu viro as costas e acendem. eu vou lá e apagam. à terceira digo que chamo a pj, a gnr, a psp e a brigada de trânsito. e eles levantam-se e vão lá para fora de gin tónico na mão. mas ainda acendem o cigarrito antes de sair do restaurante. e guardam o último bafo para quando voltam a entrar. uns verdadeiros filhos da outra é o que vos digo.
às vezes também há aqueles que vão fumar para a casa-de-banho. eu não percebia a lógica disto mas o meu namorado explicou-me que há por aí pessoas que gostam de fumar enquanto fazem o nº2. interessante. também não são raras as vezes que apanho senhoras a sairem de uma casa-de-banho quase em chamas. normalmente são as que deixam à mesa o marido e o bebé. aqui a coisa é mais óbvia: está a amamentar e o marido não alinha em leite com sabor a nicotina para o puto. ai as mulheres, essas matreiras.
mas agora que o verão se está a acabar a coisa só tem tendência para piorar. por isso, este ano, antes que saquem dos cigarros vou já enviar um email ao quintino aires a perguntar como é que devo lidar com clientes destes.
é que de birras de gaiatos percebe ele bem.