segunda-feira, 20 de setembro de 2010

há um empregado de mesa em cada um de vocês. mesmo que sejam muito chiques.

eu tive uma colega que se chamava samantha. este não é um nome falso. o nome dela era samantha e eu não consigo inventar outro nome para a samantha. tem que ser samantha. a samantha era uma menina que decidiu trabalhar no verão para ganhar alguns trocados para vestidos, cintos e caipirinhas no bbc. ela não precisava de trabalhar. era só uma menina rica e mimada a fazer frente aos papás.
a primeira vez que vimos a samantha foi na entrevista. ela estava sentada numa mesa com o gerente e nós andávamos em volta a limpar o restaurante. e à escuta. e foi logo aí que lhe tirámos a pinta: ela no seu sobretudo branco imaculado, baton vermelho e cabelo ruivo fazia mais perguntas ao gerente do que ele a ela. o momento foi tão hilariante que no final todos foram perguntar ao gerente se ele tinha conseguido o emprego. mas, apesar de tudo isto, ele contratou-a como a nova empregada de mesa. era gira e isso, muitas das vezes, bastava-lhe.
eu e os meus colegas já sabiamos como é que aquilo ia ser: nós eramos o gangue e ela era a betinha que não devia fazer parte da história. e foi com essa cara que a recebemos no seu primeiro turno. e, na primeira vez que fiquei frente a frente com a samantha, ela olhou-me de alto a baixo e disse-me: olha, gosto do teuuu...casaco. e depois comemos, vestimos os uniformes e preparamo-nos para a guerra. e depois o gerente: tu ficas na porta, vocês ficam nas mesas e tu ficas no bar. a samantha fica contigo para aprender. comigo? mas que mal é que fiz? e as minhas colegas riram-se de mim porque eu fiquei encalhada com a samantha. ao fim de 30 minutos num bar com 4 m2 eu já não podia vê-la à frente. e ela estava sempre minha à frente. eu, no lodo, não tinha a mínima vontade -ou tempo- de ensinar a betinha a tirar um café. e, no fim da noite, descabelada, transpirada e esfomeada olhei para a samantha: não tinha um fio de cabelo fora do sítio. vá samantha, agora vais-me ajudar a limpar isto. limpa os copos e o lavatório. 2 minutos depois diz ela com a cara mais enojada do mundo: desculpa...como é que queres que eu limpe isto?- isto era uma pia cheia de restos de menta dos mojitos, limas moídas das caipirinhas, palhinhas usadas e cascas de limão dos martinis. - como assim? limpas. atiras isso para o lixo e lavas. 2 minutos depois ela chega ao pé de mim e diz: desculpa...não percebi. queres que eu mexa naquilo? eu, no meu pior dia de tpm, cheguei à pia agarrei uma mão cheia do que para lá estava, apontei-a à cara da samantha e disse: fazes assim! pegas nisto, atiras para o lixo e depois lavas. alguma dúvida? -não, mas...podes-me arranjar uma luva? eu não vou tocar...nisso.
no dia seguinte a samantha ficou na sala. de camisa, avental, leggings e botas de salto alto. para lá e para cá. o barulho das botas da samantha enlouquecia-nos a pouco e pouco. ploc ploc ploc. o gerente recebeu tantos olhares de "oh lhe dizes que amanhã tem que vir de ténis ou eu passo-me da cabeça" dos meus colegas que no fim do turno foi falar com ela. não teria sido preciso: no final da noite o calo que ela tinha no pé tinha chegado para ela entender. os dias foram passando e a samantha foi resistindo aos meus dias de mau humor, aos gritos dos meus colegas, aos raspanetes do gerente. e ao fim de 3 semanas já tinhamos, finalmente, criado um monstro. a perfeita samantha, aquela miúda que parava de levantar pratos de 2 em 2 minutos para retocar o gloss, era agora uma empregada de mesa: descabelada, suada, vermelha, de avental sujo, sem luvas e a dar o litro. e limpava as casas-de-banho como ninguém. e era a melhor a despachar os clientes.
mas, ao fim de mais uma semana, a samantha decidiu ir-se embora. foi um mês de trabalho que lhe deu um ordenado que lhe chegou para o que queria. e também me chegou a mim um mês para perceber que, se dermos uma oportunidade às pessoas, elas às vezes revelam-se melhores do que alguma vez imaginámos.
quando a samantha foi buscar o salário já era aquela menina betinha de novo. de casaco vermelho, pérolas e sabrinas. mas quando eu me despedi dela e ela sorriu eu vi muito além do que ela mostrava. e antes de sair porta fora ela ainda olhou para mim de alto a baixo e disse: olha, gosto do teu...avental.
ilustração de Manel Cruz

16 comentários:

Cate disse...

oh :)

Angelo disse...

As primeiras aparências e os preconceitos podem ser lixados!

Viva a Samantha!

Quando e como eu quiser disse...

É caso para dizer que as aparências iludem. Afinal a Samantha era uma querida, só não teve grande oportunidade de contacto com os colegas de trabalho. À próxima que vier dêem uma oportunidade.

provocação disse...

Espera, percebi mal? Ela no fim mostrou que era bitch, ou não? Tipo tu ficas aí agarrada ao avental e eu vou á minha vidinha... foi isso? Eu percebi assim mas se calhar sou eu que aprendi que as pessoas quando saem dos sítios aproveitam sempre para morder.

Anónimo disse...

é verdade, mas não é só de mesa, é na ajuda aos outros, na disponibilidade para quem precisa, na decisão de não julgar, na modéstia e humildade em SERVIR.
Servir não é no fundo o que fazem os empregados de mesa?

Jojozinha disse...

Fantástico. Acabei de descobrir o teu blog pelo "i" e estou a divertir-me imenso ao le-lo.
Este verão também trabalhei num restaurante para ganhar uns trocos, tive uns primeiros dias de samanta sim senhora, mas no final do 1º mês já estava uma pró e adorei! Chorei muitas vezes, tive clientes difíceis, tive que limpar teias de aranha e moscas com as mãos... mas aprendi tanta tanta coisa. E passei a olhar de outra maneira para todos os empregados de mesa. Agora quando vou a um restaurante como cliente não sou a mesma pessoa. E acho que todas a gente devia passar pela mesma experiencia uma vez na vida!

beijinhos e parabens pelo blog.
é divertido e com uma escrita fluente e deliciosa!

Jojozinha disse...

ja partilhei o blog :)

Marta disse...

Opa gostei imenso do teu blog, vou segui-lo :)

Eu não me importava nada de ser empregada de mesa, seja chique ou não, alias e um trabalho como outro qualquer. Mas sim, a primeira aparencia é bastante importante mas se depois começarmos a conhecer bem a pessoa pode ser que afinal estejamos enganados.
Beijinho*

Geraldes Lino disse...

pssht (som que acho de mau gosto, foleiro e até algo saloio, e por isso nunca o faço para chamar um/a empregado/a de mesa) ó menina Vera!
Tb tenho um blog, mas é de banda desenhada, achei positivo o que se passou consigo (escrever num blog e uma editora publicar-lhe os seus textos em livro) e como gostaria que acontecesse com algum autor de BD (fazer bandas desenhadas num blogue e aparecer uma editora interessada em publicá-las em álbum), escrevi um "post" acerca do artigo no jornal i e teci considerações a esse respeito.
Gostei de ler alguns dos seus textos, você de facto escreve bem e tem poder de observação.
Terei muito gosto em que leia o que escrevi a respeito no meu blogue "Divulgando Banda Desenhada", no endereço http://divulgandobd.blogspot.com
Abraços.
Geraldes Lino

Qel disse...

eu ando agora a descobrir algumas samanthas. dei-lhes o beneficio da duvida e... nao sao más de todo :) *

Carlos Carvalho disse...

A ilustração é do Manel Cruz dos Ornatos Violeta?
Gosto imenso do blog.

spritof disse...

...estamos sempre a aprender.

spritof disse...

Adorei o blog...

...comecei a ler e tive dificuldade em parar.
Mas tem de ser... duche... fazer jantar... comer... e dormir que estou de rastos!

Vicente Mais ou Menos de Souza disse...

vejo com imensa satisfação que vão aparecendo cada vez mais e melhores restaurantes em Portugal e que têm um serviço esmerado, simpático e equiparável aos empregados de mesa estrangeiros.

carlita disse...

Adorei....sabes, um dia queriamos ir de férias, e não tinhamos dinheiro. Ele estava na faculdade, eu em Abrantes. Como Abrantes está sempre em obras, pedi na boa se me davam trabalho numa obra. Primeiro riram-se, depois perguntaram "TU?" depois disseram "está bem, aguentas um dia" Tinha as mãos em sangue, o nariz cheiiiinho de pó, fininho, bebia cerveja às 10h da manhã, mas aguentei, aguentei 2 semanas, fomos de férias com o ordenado de trolha que eu ganhei com todo o esforço e sem vergonha nenhuma! Beijinho

Anónimo disse...

Sensacional vc.
parabéns!
Mike