terça-feira, 14 de setembro de 2010

oh menina que coisa horrível é esta com que eu acabei de me deliciar?

cada vez mais me convenço que os clientes não sabem como fazer as coisas porque nunca ninguém lhes explicou. ora isso acaba aqui e agora. estas dicas são preciosas por isso guardem-nas para a vida. há, evidentemente, muita coisa que os donos dos restaurantes não querem que se saiba. por exemplo... deixa cá ver: um prato que custa 12 euros tem um custo de 90 cêntimos. a segunda-feira é o pior dia para se comer fora. e adiante. mas lá está, se não querem que isto se saiba, também não sou eu que vou dizer. o que interessa aqui são pequenas coisas que toda a gente tem o direito de saber. e assim chegamos ao cenário nº1:
a sobremesa.
é 2ªfeira e vai almoçar fora com a sua amiga. comem uma saladinha, bebem água fresca, conversa para aqui, conversa para ali e depois chego eu. vão desejar sobremesa? ai sim, são dois pudins. lamento senhoras, mas só tenho um pudim. cá está: dilema nº1. quem fica com o pudim? resposta certa: ninguém. se o restaurante 'tá vazio e só há um pudim cá está uma boa dica de que não é de hoje. será de domingo? de sábado? o melhor é escolher outra. ser um pudim muito bom que foi feito ontem e vendeu-se quase todo ao jantar, é possível. mas é pouco provável. o mais certo é ser só um pudim ressequido. e não tem mal nenhum perguntar ao empregado o que é que tem de hoje. estranho é discutirem por aquele pudim velho que eu já vejo no frigorifico há 3 ou 4 dias. e o mais certo é dar em reclamação. e assim chegamos ao cenário nº2:
a reclamação.
a família vai a um restaurante para um jantar descontraído de fim-de-semana. pedem os pratos, as bebidas, comem e bebem. no final vou eu levantar os pratinhos. olhe, desculpe! diga lá ao chefe que este risotto estava muito mau. péssimo. até o meu marido faz melhor que isto.
eu olho para a senhora. olho para o marido. e olho para o prato: só faltava ser lambido. nem um grãozinho de arbóreo para contar a história. e lá vou eu para a cozinha, que tem uma grande janela. a senhora e a família dela estão todos a olhar para mim através do vidro. a confirmar que eu vou reclamar. e vêem-me a falar, a ouvir com ar de interessada e a dar meia volta. e depois vou à mesa: já comuniquei ao chefe. e a senhora faz o seu ar triunfante enquanto olha para o chefe, que sorri de volta. ora, se esta senhora e a sua família soubessem ler os lábios teriam percebido que eu não comuniquei ao chefe absolutamente nada. fui lá e disse: então e o que é que achas desta cena do carlos cruz? ele respondeu. eu ouvi interessada. e dei meia volta. e perguntam vocês: mas porquê?
ora, por isto: para mim comer tudo e reclamar não tem valor. eu ia reclamar, o chefe ia ficar nervoso, ia ficar horas a pensar o que tinha feito de errado naquele risotto, ia-se distraír e ia fazer porcaria. e tudo porque uma senhora comeu tudo. há até pessoas que, em situações idênticas, reclamam depois terem de pagar pelo prato. mas o senhor pediu a algum dos meus colegas para trocar o prato? não. e consumiu-o? sim. então peço desculpa senhor, mas as normas da casa obrigam-me a cobrar. sim, eu às vezes invento normas da casa. mas parece-me absurdo eu ir à zara comprar um vestido, levá-lo a uma festa, passear-me com ele e depois ir à loja reclamar que afinal não me fica bem. era bom. mas também era parvo.
por isso já sabe, se quer que o chefe ouça a sua reclamação, reclame antes de comer tudo.
mas há excepções, claro. clientes habituais que comem sempre a mesma coisa e que um dia, de prato limpo, me dizem: olhe diga lá ao chefe que isto hoje não estava grande coisa. e eu digo ah e tal podia ter dito e ele diz ah e tal deixe lá. e aí sim eu vou à cozinha, transmito a mensagem e pedincho uma sobremesa para compensar o senhor. epá, pode ser aquele pudim que 'tá aí há 4 dias.
e então, sou querida ou não sou?

10 comentários:

Cláudio disse...

Tanta vez que isto acontece,comem tudo e depois dizem podia estar melhor bla bla bla....

Ritchie disse...

é preciso é terem muita cara de pau. olha só a lata!

Manuela disse...

Obrigadinha pela dica, do pudim ;)

Jorge Soares disse...

Ora aqui está um post útil..

Parabéns pelo blog.. que não conhecia, e já está no meu reader.

jORGE

Sara non c'e disse...

Dicas preciosas :)

Rita Burmester disse...

Um bom cliente só merece um pudim de 3 ou 4 dias? Eu ficava triste.

Frutinha disse...

Oh pah fantastico!!! é que nunca me tinha lembrado de tal coisa.. a do pudim.

vera disse...

Uma das melhores... ou piores sei lá...lol "ó menina o meu bacalhau a bras tens 7 carosos de azeitona e eu so comi 6..." isto depois de comer tudo... aconteceu numa daquelas noites de "lodo" com uma "tiazorra"...

Diana Silva disse...

Parabéns à proprietaria deste blog...
Sabe caracterizar muito bem o que é a vida de um empregado de mesa, a exigencia que nos é imposta, TUDO!

Restauração é coisa que se goste de fazer, mas nao é trabalho que se faça uma vida inteira... o desgaste é muito.

Continuaçao de boas experiencias, e engraçadas também, e de posts optimos como estes!

Diana Silva

Anónimo disse...

Nao é bem assim como voces dizem. Já me aconteceu reclamar durante a refeição porque um prato nao estava em condições (pelo menos de acordo com o preço da ementa), ao que, primeiro a empregada e depois o chefe, respondem "neste sítio é assim que se serve" e no fim tive que comer tudo simplesmente porque estava mesmo com fome e já sabia que ia pagar. É que isso de trazerem outro prato quando reclamamos, só acontece no país das maravilhas!...