terça-feira, 30 de novembro de 2010

ou eu ou o maluco.

eu tive um colega que era maluco. eu sempre me dei bem com todos os meus colegas. mas com este que era maluco eu não consegui. por causa deste meu colega que era maluco eu fui dizer aos meus patrões que me queria ir embora. façam as minhas contas que eu já não consigo trabalhar aqui com aquele maluco.
o meu colega que era maluco ao princípio não parecia maluco. acho que é sempre assim com todos os malucos, psicopatas e tarados. ao início ninguém se apercebe de nada. ele passava a vida a cantar chorinhos e tinha muitos músculos. era atarracado. no início de cada turno escondia no bar o seu frasco de pó, que misturado com água se transformava num batido que lhe aumentava os bíceps. por noite bebia 3 ou 4. talvez tenha sido isso que o fez ficar maluco.
com tanta testosterona acumulada ele só não quis bater no patrão. mas quis bater no gerente, nos empregados de mesa, em alguns clientes e num dos chefe de cozinha. e eu só não percebia porque é que ninguém o mandava embora. e durante meses a minha vida pareceu um longo episódio do twillight zone.
a função do meu colega maluco era quase sempre receber os clientes à porta e leva-los até à mesa. facílimo. mas ainda assim conseguia arranjar problemas. lembro-me de um casal muito simpático de dois senhores muito apaixonados que ele sentou numa das minhas mesas. o casal não gostou da mesa porque atrás deles estava um grupo muito barulhento. é justo. como o restaurante estava vazio eu disse que não havia problema e que ia informar o meu colega responsável para os mudar de mesa. e foi o que eu fiz. e fui à minha vida. 10 minutos depois, o casal gay, sentado na mesma mesa, chamou-me. tinham o ar mais assustado do mundo. olhe desculpe, mas nós não gostámos nada do que o seu colega nos disse e achamos melhor ir embora. eu ouvi o que eles tinham para me dizer, envergonhei-me por ele e disse-lhes para escolherem a mesa que quisessem. temi pela minha carinha sem cicatrizes e pela minha dentição completa, mas fiz o que tinha de ser feito. e depois, claro, fui fazer queixinhas. e foi por mim que o meu gerente ficou a saber que o meu colega maluco tinha dito àqueles senhores que eu é que decido onde é que as pessoas se sentam. vem aqui muita gente famosa e até eles se sentam onde eu mando por isso os senhores que nem isso são ou se aguentam aqui ou vão-se embora. o meu gerente pediu-lhes desculpa, ofereceu-lhes o vinho e pediu-me para ter calma. a mim!?
quando não estávamos com medo, eu e as minhas coleguinhas divertiamo-nos a chatear o maluco. deixávamos as senhoras ir à casa-de-banho quando ele a estava a limpar e riamos disfarçadamente quando ele saía disparado lá de dentro com as luvinhas azuis de látex, os dentes cerrados e a respiração acelerada de raiva. fingiamos que não percebiamos o que ele nos pedia e ele fechava os punhos e semicerrava os olhos e gritava não entendeu que eu 'tou mandando? nós sorriamos, e ele quase espumava. ao fim de alguns meses já ninguém o podia ver à frente. e foi só por isso que eu até hoje não percebi porque é que só o mandaram embora quando eu disse que com ele não trabalhava mais. às vezes imaginava que os meus patrões tinham espalhado câmaras pelo restaurante e que se divertiam com aquilo como quem se diverte com o big brother. houve até uma altura em que eu andava triste porque pensava que, se ninguém via, se calhar eu é que era a maluca. e pensei durante muito tempo. até ao dia em ouvi uns estalinhos e o descobri no bar, de corta-unhas na mão, a nivelar os cascos dos pés.
aí tive a certeza de quem era o maluco.

domingo, 21 de novembro de 2010

the american way.

apesar de, às vezes, ainda me sentir perdida no meio de pratos, talheres e guardanapos, sempre que um empregado novo chega tenho tendência para o tratar com alguma condescendência. acabou de chegar, coitado, não sabe como as coisas funcionam por aqui, tenho de ajudá-lo. e normalmente o novo empregado, que não sabe como as coisas funcionam, agradece. e uma semanita chega para ele aprender e eu ficar com a sensação de dever cumprido. ora, tenho alguma experiência, gosto de servir as pessoas e por isso, gosto de acreditar que sou boa no que faço. quando eu comecei como empregada de mesa, eu só levava um prato de cada vez, não sabia abrir uma garrafa de vinho e entregava os talheres ao cliente, directamente da minha mão. hoje, levo três pratos, abro uma garrafa de vinho em 5.2 segundos e, às vezes, ainda entrego os talheres ao cliente directamente da minha mão. mas continuo a aprender coisas novas todos os dias. e o mais curioso é que são sempre os recém-chegados, a quem eu expliquei como polir os talheres como quem explica como fazer uma cirurgia cardiovascular, que me ensinam como fazer coisas como servir um whisky sem usar um medidor ou como abrir uma garrafa de espumante sem dar com a rolha na cabeça de ninguém.
mas ainda dou umas boas calinadas.
o novo empregado de mesa perguntou-me, enquanto eu o ensinava a polir copos, qual era o nosso tipo de serviço.
- qual é o nosso tipo de serviço?....serviço....
- sim, qual é o vosso serviço?
- bem...o nossso serviço..
- é americano?
- não sei. é da pollux.
ele subiu o sobrolho, fez que sim com a cabeça e continuámos a polir copos. e apesar de ainda me ter passado pela cabeça que ele era um bocado doidinho em querer saber pormenores como a proveniência do serviço, consegui perceber mais tarde, quando inseri "serviço americano" no google, o que ele quis dizer. serviço americano: tipo de serviço no qual o prato vem preparado e decorado da cozinha, sendo apresentado ao cliente directamente. e ainda descobri o serviço à francesa e o serviço à inglesa. e pela primeira vez, fiquei contente de seguirmos os americanos por lá. nunca disse ao meu colega qual era o nosso tipo de serviço. ele demitiu-se antes disso. provavelmente ficou nervoso por não conhecer o serviço à pollux. ou provavelmente não.
de qualquer das maneiras ganhámos os dois: eu aprendi os tipos de serviço. ele aprendeu a polir copos como deve ser. e é assim que os empregados de mesa, um dia, vão dominar o mundo. o da restauração, pelo menos.
tenho dito.

sábado, 6 de novembro de 2010

dinner and a show.

trabalhar num restaurante pode ser perigoso. sobretudo na cozinha. é a pressão, o calor, a comunicação feita numa salgalhada de línguas, os empregados de mesa a fazerem asneiras. e além disso há facas por todo o lado. por isso, quando eu trabalhei num restaurante que tinha a cozinha aberta, às vezes, os clientes tinham direito a mais do que um jantar.
nós, empregados de mesa, temos um trabalho monótomo, mas que depende sempre dos clientes para melhorar ou piorar o dia. na cozinha não é assim. principalmente naquelas em que o menu é o mesmo há uma porrada de anos e eles fazem sempre a mesma coisa. e nesta era assim. eles faziam a preparação, organizavam a mise-en-place e quando não estavam a preparar um daqueles pratos que já faziam de olhos fechados, ficavam a olhar para nós. ou uns para os outros. e às vezes até isso os podia fazer perder a cabeça. e de que maneira.
um dos cozinheiros que trabalhava nesse restaurante, era alto, encorpado e completamente assumido. era a minha melhor amiga. falávamos de rapazes, manicure, malas e máquinas para esticar o cabelo. quando íamos jantar ele atrasava-se e eu esperava por ele 30 minutos. quando íamos comprar sapatos as vendedoras arregalavam os olhos quando ele perguntava se tinham a sandália prateada no número 42. quando saía à noite com ele nunca consegui conhecer um rapazinho porque ele só me levava a bares gay. e sempre que eu lhe perguntava como ele estava, ele respondia com um assertivo estou óptimaaa, querida.
então quando este meu amigo estava na cozinha e olhou por breves instantes para outro colega, a quem nunca ninguém ouviu dizer uma palavra, a confusão instalou-se. e foi mais ou menos isto.
- estavas a olhar para mim?- disse o caladinho.
- eeuuu?
- não olhas assim para mim ouviste?
(aproveito para relembrar que a cozinha era aberta...)
- eu algum dia vou olhar para você, feio como você é?- e virou-lhe as costas.
o outro espeta-lhe um calduço. o meu amigo, que estava com um tacho na mão, vira-se e espeta-lhe com o dito na cara. o outro dá-lhe com a direita. e há gritos. e ingredientes a voar. e banglas a tentar separá-los. e quando se fez silêncio e eles se aperceberam onde é que estavam, havia 8 empregados de mesa especados e 90 clientes de boca aberta, tudo a olhar para eles.
no dia seguinte, o caladinho foi demitido e o meu amigo continuou a dizer a todos que estava óptima. e estava mesmo: leve e solta, de olho negro e sandálias prateadas.