sábado, 6 de novembro de 2010

dinner and a show.

trabalhar num restaurante pode ser perigoso. sobretudo na cozinha. é a pressão, o calor, a comunicação feita numa salgalhada de línguas, os empregados de mesa a fazerem asneiras. e além disso há facas por todo o lado. por isso, quando eu trabalhei num restaurante que tinha a cozinha aberta, às vezes, os clientes tinham direito a mais do que um jantar.
nós, empregados de mesa, temos um trabalho monótomo, mas que depende sempre dos clientes para melhorar ou piorar o dia. na cozinha não é assim. principalmente naquelas em que o menu é o mesmo há uma porrada de anos e eles fazem sempre a mesma coisa. e nesta era assim. eles faziam a preparação, organizavam a mise-en-place e quando não estavam a preparar um daqueles pratos que já faziam de olhos fechados, ficavam a olhar para nós. ou uns para os outros. e às vezes até isso os podia fazer perder a cabeça. e de que maneira.
um dos cozinheiros que trabalhava nesse restaurante, era alto, encorpado e completamente assumido. era a minha melhor amiga. falávamos de rapazes, manicure, malas e máquinas para esticar o cabelo. quando íamos jantar ele atrasava-se e eu esperava por ele 30 minutos. quando íamos comprar sapatos as vendedoras arregalavam os olhos quando ele perguntava se tinham a sandália prateada no número 42. quando saía à noite com ele nunca consegui conhecer um rapazinho porque ele só me levava a bares gay. e sempre que eu lhe perguntava como ele estava, ele respondia com um assertivo estou óptimaaa, querida.
então quando este meu amigo estava na cozinha e olhou por breves instantes para outro colega, a quem nunca ninguém ouviu dizer uma palavra, a confusão instalou-se. e foi mais ou menos isto.
- estavas a olhar para mim?- disse o caladinho.
- eeuuu?
- não olhas assim para mim ouviste?
(aproveito para relembrar que a cozinha era aberta...)
- eu algum dia vou olhar para você, feio como você é?- e virou-lhe as costas.
o outro espeta-lhe um calduço. o meu amigo, que estava com um tacho na mão, vira-se e espeta-lhe com o dito na cara. o outro dá-lhe com a direita. e há gritos. e ingredientes a voar. e banglas a tentar separá-los. e quando se fez silêncio e eles se aperceberam onde é que estavam, havia 8 empregados de mesa especados e 90 clientes de boca aberta, tudo a olhar para eles.
no dia seguinte, o caladinho foi demitido e o meu amigo continuou a dizer a todos que estava óptima. e estava mesmo: leve e solta, de olho negro e sandálias prateadas.

23 comentários:

Marta disse...

ora nem mais! admiro essas pessoas :)

Pedro Paiva disse...

ahahah!
e a receptividade dos clientes foi boa?
podia ser uma excelente oportunidade de reformular o modelo de negócio!
Pelo menos 1 ou 2 dias por semana!
blog muito bom e sempre divertido!

Miss B-Beautiful disse...

Lindo! Pelo menos os patrões foram justos!!!

Quando e como eu quiser disse...

Só histórias engraçadas =D

Anónimo disse...

isto passou-se no restaurante do novo hotel de oitavos?

Louco disse...

"Nunca ofendas uma "diva" que tenha um tacho na mão".
Parece-me um bom lema para se seguir na vida.

S* disse...

ahahah

Olha que raio, implicou com ele só por ser olhado? Bem feita.

v_crazy_girl disse...

Que lolol!!!

Pelo menos despediram a pessoa certa!!

Anónimo disse...

No caso dos clientes, a escolha do dia e local para jantar foi deveras acertada.
Nos dias que correm, com a crise instalada, pagar apenas um jantar e assistir a um espectáculo a custo zero, é de mestre.

Parabéns pelas crónicas. Também tive o privilégio de trabalhar na restauração e comprovo a riqueza da matéria para a escrita.

Walmor de Oliveira disse...

Parabéns pelo blog, com a sua análise sempre divertida do dia a dia.
Walmor de Oliveira, Florianópolis, Brasil

taniah disse...

loooooooooooooooool

é assim a vida agitada de uma empregada de mesa!

Anónimo disse...

Belo blog. Compreensível para mim, que passei por várias situações semelhantes em Lisboa. Fui garçom para não passar fome em Portugal. Mas pelo o que pude perceber por aí, as pessoas não querem saber quem você foi ou quem você é. Garçom é garçom.

Força.

Menon-Brasil

Cristiano Ferronato disse...

Tive noticia de blog numa revista semanal aqui do Brasil e adorei suas histórias e o nome é muito bom. Voltei de Lisboa em maio estava a estudar na Universidade de Lisboa. Um dia na biblioteca da faculdade de letras uma amiga minha foi advertida por uma funcionária que disse psst.. ó menina até hoje quando nos falamos é a primeira coisa que falamos e rimos. Parabens.

Ari Denisson disse...

Bom dia! Sou do Brasil e tomei conhecimento deste espaço por meio de uma matéria numa revista daqui. Fiquei muito emocionado. E gostei do seu estilo. Não sou adepto daquele discurso demagógico tipo "Com a laranja que jogaram na sua cabeça, ela fez um suco", mas achei muito interessante e diferente você ter tido a ideia de compartilhar essas experiências. Parabéns.

Wellington disse...

Belo blog. Compreensível para mim, que passei por várias situações semelhantes em Lisboa. Fui garçom para não passar fome em Portugal. Mas pelo o que pude perceber por aí, as pessoas não querem saber quem você foi ou quem você é. Garçom é garçom.

Força.

Menon-Brasil

Teresa disse...

Sou seguidora do blog e Adoro, divirto-me imenso com as peripécias do belo mundo da hotelaria (a qual tb pertenço)! Parabéns!! Gostava que contasse experiências com mais frequência, mas vale a pena esperar quando as histórias são tãoooo boas, tal como "dinner and a show", uma verdadeira "pérola"!!!

Vicente Mais ou Menos de Souza disse...

tempos difíceis se aproximam para a restauração...

Troco amargura, nova,
Por alegria, mesmo usada.
Sorrisos, a combinar.

filha do administrador disse...

o caladinho devia ter medo de ser desmascarado. sempre desconfiei de "machos latinos" que se assustam muito quando um gay olha para eles ou nem olha, passa na mesma rua

Anónimo disse...

E que tal..
um subsidio de risco para o caso se cumplicar esse espectaculo..
se passar e ser semanal por exemplo..:)

continuação de boas histórias

Ordepuir disse...

Apesar de acompanhar este blogue há algum tempo nunca comentei, por alguma razão que nem eu sei!

Apenas para dar os parabéns pelo pelo excelente blogue, pelo livro e pela reportagem/entrevista na TV.

Por favor, continua...

Lipa disse...

Excelente a reportagem tua da Sic :D

Joao Serra disse...

Apos a leitura tanto do teu texto como dos comentarios aqui deixados... Fico triste, nao pela tua escrita que e bastante boa, mas pela maneira como as pessoas receberam esta historia. Ninguem foi capaz de defender o rapaz que foi cobicado pelo outro "homem". Apesar de nao estar aqui a defender o rapazinho que decidiu oferecer um calduco, nao consigo sequer pensar que a sociedade em que estou a pensar viver os proximos 50 anos se predispoe a consolar um bicha assumido so porque levou um calduco... Que eu me lembre, um calduco nao doi assim tanto e nao e nem de perto nem de longe razao para agredir alguem com um tacho. O que o senhor bicha devia ter feito era ter esclarecido que nao estava a olhar para o colega e que nao tinha interesse nele, mas sem o ofender dizendo que ele era feio (ninguem gosta de ouvir isso, alem de ser provocatorio é ofensivo). Ja o rapazinho que foi cobicado devia ter evitado o calduco de forma a evitar confusao, por vezes um olhar forte e repulsivo tem mais efeito que um murro bem dado.

Conclusao: Mais tolerancia para a mesa 2! lol

yolanda disse...

opah, genial.