domingo, 12 de dezembro de 2010

espelho meu espelho meu: há algum chefe mais chato do que eu?

desde que comecei a trabalhar já tive de lidar com vários chefes. cada um com a sua mania, com a sua forma de trabalhar e mais importante, com a sua maneira de lidar de com a sala. muitos falharam nesta última função e por isso muitos foram à vida. ser a única pessoa a trabalhar no restaurante desde que aquilo abriu deu-me algum benefício em relação aos outros que chegaram depois. porque eu sei tudo o que se passou por lá. e os meus patrões sabem que eu sei.
e trabalhar com chefes pode ser díficil, mas eu também nunca disse que era fácil trabalhar comigo. eu sou um doce, sim, mas se meteram a colher de pau no meu trabalho está tudo tramado. e é por isso que nos últimos 3 anos, em que tive uns 8 chefes e sub-chefes eu posso dizer que tive discussões daquelas de se ouvir na rua com praticamente todos. sempre em prol do cliente, claro está.
o primeiro chefe que por lá passou chegou amuado e saiu amuado. tirando a parte que andava a pontapear tachos, pouco ou nada me recordo. esteve lá de passagem. saíndo ele ficou o sub-chefe a tomar conta da coisa. deu merda. eu sempre soube que ia dar. ele também. o problema deste sub-chefe que passou a chefe é que ele gostava mais de beber do que de cozinhar. e isto revelou-se um problema, sobretudo quando ele apanhava valentes cadelas durante o serviço e eu tinha de andar de rabo para o ar na cozinha à procura dos pedidos que ele tinha perdido.
pior do que isso era controlar o stock do bar. sempre que servíamos um whisky tinhamos que fazer uma marca na garrafa para sabermos onde tinha ficado. e a cozinha deixou de ter garrafas de tinto e de branco para temperar os risottos. sempre que saía um risotto lá tinha eu que lhes ir dar uma dose certa de vinho. mas mesmo assim, às vezes, o chefe chegava mesmo a tentar enganar-me e fazia-me ir ao sistema ver se estava algum risotto para sair. atrasava-me o trabalho, deixava-me irritada, eu chamava-o bêbado e ele chamava-me filha da outra. no final fazíamos as pazes, até ao próximo turno. quando os patrões se cansaram de lhe dar oportunidades lá se foi ele. e as garrafas voltaram à cozinha.
e depois o sub-chefe do sub-chefe que se tornou chefe, tornou-se chefe. mas há pessoas que não nasceram mesmo para a coisa. era um óptimo cozinheiro, um péssimo chefe. um dia eu pedi um bife. quando fui à roda ele já o estava a empratar e eu achei o bife...diferente. olha lá eu não vou levar esse bife, tá muita pequeno pá. ele olhou para mim, olhou para o bife e disse não te preocupes que eu disfarço. e toca a esconder o bife debaixo da salada e das batatas. eu contei até 30 e depois, claro, fiz o que sei fazer melhor: birra. e disse que não ia levar o bife. e ele disse que não ia fazer outro. e eu disse que ele devia ter vergonha. e ele disse que ele é que mandava. e eu- sem querer, claro- atirei com o prato do bife ao ar e disse ai fazes-me outro? e ele fez, muito contrariado. missão cumprida: o cliente ficou satisfeito com o tamanho do seu bife. os bangladeshianos tiveram medo de mim durante uma semana. e o chefe fez as mala e pôs-se a andar. ficámos bons amigos.
e foi aí que os patrões se decidiram a contratar um chefe que, segundo eles, se ia dar muito bem comigo. e foi com ele que eu passei as passinhas do algarve. o meu problema é este: eu sou adepta da consistência. eu acredito que clientes que voltam e pedem o mesmo da última vez, querem o seu prato igualzinho ao que comeram da última vez. e é só por isto que eu discuto e atiro com bifes ao ar. gosto de consistência na apresentação, consistência no sabor, consistência no tempo. gosto tanto, tanto, que os meus patrões asseguraram-se de que seria eu a ter atenção ao que passava daquela roda para os clientes. mas este chefe chegou com vontade de mudar tudo. e eu, com a desculpa que cumpria ordens de cima, a tudo o que saía diferente batia o pé. não vou levar, isto não é assim. ao que o chefe respondia agora é. e de cada prato vi oito versões. andámos meses nisto, a gritar como dois adolescentes. e a guerra estava oficialmente instalada: era a sala contra a cozinha. de um lado gamelas, do outro queima-cebolas.
até que o chefe se cansou e também ele se pôs a andar.
hoje, cozinha e sala vivem na paz. cada um no seu lugar. o novo chefe é, afinal, uma chefe. e ninguém discute. não sei o que isto significa, mas deve haver uma explicação para a coisa.
no fim sinto falta deles todos. o que vale é que tenho um chefe cá em casa e posso gritar com ele à vontade. ele deixa porque sabe que é só para matar saudades. a maioria das vezes.

8 comentários:

S* disse...

As tuas histórias são fantásticas... fazes bem em ser exigente, com comida não se brinca ;)

Cláudio disse...

Eu por ser o mais velho da casa passado uns bons meses e de uns tantos irem embora la fiquei eu chefe acho que vai acontecer o mesmo contigo...

Ritchie disse...

é de louvar é que faças o mesmo que eu e não te cales... é assim mesmo e acho que quando é em prol dop bem estar de um cliente, como é o nosso caso, é fincar pé até não se poder mais!

Marta disse...

humm eu que estou no meu primeiro emprego gabo-te a paciencia.
Tenho varias supervisoras, pois sou operadora de caixa e sao umas parvas. Salvo duas que me ajudam sempre sem reclamar porque me enganei. Sao mulheres que so sabem criticar e que querem que seja mos robos autenticos a passar os produtos. Ainda nao estou la a um mes e pergunto me como existem la pessoas a trabalharem a 8 anos, ja estou a procura de outro part-time. Sei que muito boa gente o precisa e infelizmente tem que trabalhar com gente que nao respeita os outros, nao respeita os seus empregados ou simplesmente colegas!
Enfim, cada um tem o seu metodo de trabalho, mas isso nao implica criticar tudo e todos.

p.s: vi a tua reportagem da sic, vi anunciado no blog da jojozinha e gostei muito!
Espero que tenhas sucesso nas tuas duas grandes carreiras, mas mais importante que escrevas mais livros!!!
beijinhos

Kitty disse...

E que opção é que seleciono oh menino?
Kisses

Anónimo disse...

então?! só faltou dizer qual deles foi o felizardo

ILCO

G. disse...

ó menina... eu um dia tenho que descobrir este sítio maravilhoso e ir lá, armado em mosca... :D isto é genial!

Johnny disse...

Gostei da história. És persistente e tens uma qualidade que poucos empregados têm (ou demonstram): fazes tudo para o bem e em prol do cliente.