segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

o vinagre e a vida.

atender pessoas que têm algumas limitações é sempre difícil. como pessoas que não sabem ler e que têm ainda uma dificuldade acrescida em escolher um prato. leio o menu 3 ou 4 vezes. ai não sei filha, leia lá outra vez. e depois as sobremesas. e depois a conta. eu leio e releio porque, apesar de ficar com todos os clientes de dedo no ar a chamar por mim, sou solidária com pessoas que, tal como a minha avó, não conhecem a magia das letras escritas. não saber ler deve ser duro. são pessoas que passam pela vida sem ler um livro do saramago. ou as legendas do seinfeld.
também há os que ouvem mal. ainda que, pensado bem, neste caso eu também não seja muito melhor. ao cliente que me perguntou se o gin era gordon's, respondi sim, engorda um bocadinho. e ao outro que me pediu um glenfiddich não levei nada porque pensei que o senhor tinha só espirrado.
mas os episódios que guardo na memória são dois.
o primeiro: a senhora com alzheimer. ao princípio achei piada ao facto de a senhora me pedir a mesma coisa sempre que eu passava por ela. hehe tão engraçada. depois achei estranho. então mas 'tá-se a passar? e depois comecei a ficar irritada e fui lá. - minha senhora, já tirei o seu pedido e já está quase a sair. tem só é de esperar. e depois lá chegou o filho dela. e foi só quando ele me perguntou se a mãe já tinha pedido e ela disse: não, ainda não pedi- e eu abri a boca de espanto que percebi. e bastou dele um discreto abanar de cabeça e um semicerrar de olhos para eu entender que a senhora, apesar de não parecer, não estava muito certa das ideias. fiquei triste por ela e senti-me mal por me ter irritado. mas não me consegui deixar de rir quando levei os pratos e a senhora disse muito séria: menina, não foi isto que eu pedi. o filho olhou para mim e riu-se. ela, sem perceber nada, riu-se também. e enquanto ríamos os três, eu lembrei-me daquela ceifeira do pessoa de quem já me tinha esquecido. a tal que tinha uma alegre inconsciência.
o segundo: o grupo silencioso. um rapaz marcou uma mesa para 25 pessoas para um dia de semana. era a única reserva que tinhamos e foram mesmo os únicos clientes que tivemos nessa noite. o rapaz que fazia anos era surdo-mudo. os 24 amigos também. a estranheza da coisa levou-me a mim e aos meus colegas a dar alguns risinhos parvos. a dizer que todos os clientes deviam ser assim. a fazer piadas idiotas sobre quem é que ia cantar os parabéns. e depois houve alguém que desligou a música ambiente. e quando demos conta já estávamos a sussurar. depois deixámos, finalmente, de dizer parvoíces. olhávamos só uns para os outros, desconfortáveis. até que ficámos entregues ao que estávamos a sentir. durante toda a noite a única coisa que se ouviu naquela sala foi o som dos talheres a bater nos pratos: foi umas das experiências mais espectaculares da minha vida.
ser empregada de mesa também tem, assim, momentos profundos. verdadeiras lições de vida. e a maior de todas é esta: não termos vergonha de mostrar o que estamos a sentir, nem que seja a clientes. a segunda maior é deixar os talheres em vinagre antes de os polir porque as manchas saem mais depressa. ambas são muito úteis para a vida.
texto originalmente publicado em junho de 2010

11 comentários:

Sandra disse...

Olá, também já fui empregada de mesa e deparei-me com imensas situações similares é de facto uma profissão enriquecedora em relações humanas. O alcool também é bom para tirar as manchas dos talheres

S* disse...

São experiências que te marcaram, disso não há dúvida. Não é para menos, as limitações e as doenças são uma realidade e têm de ser respeitadas.

Cláudio disse...

As maiores lições de vida que tive foi como empregado de mesa :d

Angelo disse...

E assim também aprendi uma coisa nova!

Marta disse...

estamos sempre a aprender, sempre :)

Marta disse...

estamos sempre a aprender :)

v_crazy_girl disse...

Realmente há imensas lições de vida que se aprendem mesmo quando não estamos à espera!!

CR 35 disse...

pssht..ó menina!Desejo que a reunião familiar decorra recheada de coisas boas ,e que o menino Jesus traga Paz e Amor.

yolanda disse...

uau. adoro os teus textos. Mas este tocou-me especialmente. Obrigada

Nawita disse...

Olá,

estava a passear-me pela net e vim parar a este texto sublime. gostei muito.
A minha irmã também tem algumas clientes idosas com as quais nem sempre sabe como lidar, mas vai aprendendo e nós com ela.
Obrigada pela dica sobre os talheres.
Bom ano a todos :)

Alex disse...

portantus...
no que toca à limpeza dos talheres pode-se tornar a coisa menos dispendiosa, e tanto o álcool como o vinagre são corrosivos, com o tempo os talheres começam a ficar baços.
o ideal, e para garantir que aquele restinho de comida que ficou no dente do garfo vai acabar por sair, o melhor é pegar num recipiente resistente (tipo um frapé de inox) enche-lo na máq. do café com água (não vá alguém pensar que seria com café) e passar por lá os talheres durante 30s (pq eles aquecem) e zás, é sp a dar-lhe.
sempre que o lito (pano de limpeza) estiver molhado mais vale trocar por outro, senão o mais certo é rasgar.
qt às experiências de vida, são elas que alimentam a minha paixão por esta profissão.
pena ser tão mal tratada, pq até é uma profissão regulamentada, onde as pessoas têm de ter requisitos mínimos, mas depois não é fiscalizada e qd é não são tidos em consideração.
isso é serviço para o ministério do trabalho e para os sindicatos, normalmente quem actua é a inspecção geral de saúde que deixa avisos sobre o que está mal, antes da asae intervir.