segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

os que desistem e os outros.

estar 12 horas por dia, seis dias por semana, sempre com as mesmas pessoas e sempre a dobrar guardanapos ou a polir talheres ou a atender clientes não parece muito entusiasmante, pois não? é porque não é mesmo. e é por isso que normalmente uma de duas coisas acontece: ou se desiste ou se fica meio maluco. nestes últimos três anos eu já tive bem mais do que uma centena de colegas, muitos desistiram e de muitos os patrões tiveram de desistir. exactamente por isso: eram completamente alienados- diziam eles. eram maluquinhos-dizia eu.
um dos que por lá passou era assim: vegan, ambientalista, zen. tinha os chacras todos no sítio. só tinha um problema: não gramava muito seres humanos. o que pode ser chato quando se tem de atender, sei lá, pessoas. quando uma cliente entrava ele já fazia má cara, só porque ela entrava. quando ela perguntava se se podia sentar na mesa do canto ele dizia que não. não lhe dava nenhuma razão, era só porque não. mas eu sei bem qual era: as pessoas não podem ter sempre o que querem- explicava. e toma lá mais uma lição de vida. ainda assim acho que a senhora tinha preferido ficar na mesa do canto. depois havia ainda aquela altura em que ele levava o ice tea à senhora e o entornava em cima do seu vestido cor-de-rosa. e era precisamente nessa altura, em que ele devia pedir desculpa, que ele dizia irritado não acha que foi de propósito pois não? e pronto, lá se foi o vegan, ambientalista, zen.
e depois havia o outro. italiano. doidinho. quando as pessoas deixavam comida no prato ele perguntava sempre no seu português esquisito então estiava una mierda? isso mesmo. era lindo de se ver.
e foi ele mesmo que na altura do natal atendeu comigo um dos muitos grupos que se juntam para um jantar seguido de uma entediante troca de prendas. e duas horas depois de termos fechado, o grupo lá se decidiu a sair e eu comecei a levantar os copos e os guardanapos. o italiano pegou num saco do lixo e enfiou rapidamente para lá tudo o que era papel de embrulho e embalagens vazias. de saco cheio na mão abriu a porta do restaurante e gritou: signores esquiecieram-se disto. um dos rapazes que seguia com o grupo -que já ia no fundo da rua, correu o mais rápido que pôde enquanto perguntava o que é? e só quando chegou ao pé do italiano maluco é que este lhe respondeu enquanto lhe entregava o saco para a mão: é seu signore. o viosso lixo!
-mas então...não o quero..não pode levar-me isso para o lixo?
- io? é cierto que não signore. no sou empregado de ninguém!
exacto. mesmo muito alienado.
texto originalmente publicado em fevereiro de 2010.

11 comentários:

Croquete e Girassol disse...

Fartei-me de rir aqui sozinha com o teu post!! Está um máximo!

S* disse...

ahahah

Esse italiano era espectacular... perguntar se estavia uma mierda é lindo!

Johnny disse...

Uma boa história esta. A do zen é hilariante, quando ele pergunta "não acha que enternei isto de propósito pois não?" ahah.

HMSC disse...

O mais engraçado nesta profissão é que podemos conhecer pessoas com diversas personalidades, como fala o texto. Eu gostei, e de facto, não é nada entusiasmante polir talheres e copos mesmo

MafaldaMacedo disse...

Excelente!

Ana FVP disse...

Tu és simplesmente hilariante!!!! Farto-me de rir com o que escreves!

Anónimo disse...

Bem, eu julgava que os empregados de mesa embirravam com o meu ar zen. Calhando é apenas uma portugalidade na etiqueta comercial: fazer o possível para enviar ao cliente mensagens subliminares de força do tipo, « vê lá se bates a bola baixa ou não te sirvo!»
P.S. Também trabalhei em restaurante: um chiringuito na Ilha de Tavira,anos 80, sem água canalizada, sem electricidade, jovens alemães alternativos em plena campanha anti nuclear e vontade de ser felizes. Esplanada sobre a praia,carregar água, grades, barras de gêlo enfim, tudo. Um verdadeiro Woodstock. Adorei!
P.P.S. a única hotelaria que gostaria de repetir: sem ASAE, sem salamaleques nem intoxicações alimentares - um milagre!

Anónimo disse...

Lendo o seu blog fica-se com a sensação de que, apesar de tudo, é melhor servir á mesa que trabalhar numa repartição de finanças. Verdade que o salário e as regalias não serão as mesmas mas aqueles funcionários têm um ar tão sem esperança que duvido que compense. Ao menos um empregado de mesa pode sonhar com o dia que terá o seu próprio negócio e um funcionário das finanças sonha com poder ter um gabinete só dele para se poder fechar lá dentro e não ouvir o ruído cinzento da repartição.

Anónimo disse...

E um reparo: enviar clientes para o WC na hora em que um viciado em esteróides as está a lavar, além de eticamente reprovável - o cliente é usado como arma entre empregados :) - pode também despoletar um acesso de agressividade física pouco desejável num local de utilização pública. Mas compreende-se, é preciso preencher os tempos mortos.

MartaP. disse...

Ai o que eu me ri.
Também sirvo as mesas num restaurante, e nunca me calhou um tal colega assim. Adorava! aha

Anónimo disse...

Ai eu queria era um Chefe assim... éramos logo dois... lol