sábado, 10 de setembro de 2011

um ano sem trabalhar dá nisto.

pois que ontem fui aos pastéis de belém e fiquei assustada com o seguinte diálogo entre uma turista brasileira e um empregado:
"meu marido foi no banheiro mas para já eu quero uma água..."
"ah veja mas é tudo de uma vez que eu não vou andar para trás e para a frente."

pois é, ao que tudo indica há uma nova forma de atender a malta. e eu já só tenho um mês para aprendê-la.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

então e hoje o que é que vai ser?

ontem fez 4 anos que me tornei empregada de mesa.
hoje faz 4 anos que decidi que não queria fazer outra coisa.
e ainda hoje é um amor incompreendido.

sábado, 16 de abril de 2011

e finalmente: os patrões.

algumas pessoas perguntam-me porque é que eu nunca escrevo sobre os meus patrões. então, mas não se está mesmo a ver? é porque eles são pessoas espectaculares, impecáveis, do melhor que há. além disso, eles sabem que eu tenho este blogue. quando eu comecei a trabalhar para eles, já há 3 anos, percebi que toda a gente lhes tinha muito respeitinho. mas assim um respeitinho um bocado aldrabado, diga-se. os meus colegas diziam-me que sempre que eu visse um deles a chegar tinha de me manter ocupada. então o esquema era este: sempre que um deles entrava no restaurante cada um dos empregados agarrava-se ao que podia. um atirava-se aos guardanapos, outro ajeitava os talheres em todas as mesas, outro metia-se a polir copos polidos. eu sentia sempre que ficava no meio da sala a olhar para o ar, até que com o tempo também me habituei a enganá-los (não é bem enganar, vá, que eu trabalhava muito sim. juro que sim. acho que até merecia um aumentozinho) bem depressa. e até quando eu estava mesmo ocupada a trabalhar os meus colegas passavam por mim e diziam baixinho: isso mesmo, ‘tás a disfarçar bem! ah, ‘tá bem. e depois havia ainda aquela coisa de ninguém os querer atender. quando eles chegavam para jantar olhávamos sempre de esguelha uns para os outros, enquanto pensávamos quem seria a vítima. a tarefa calhava sempre aos recém-chegados. na maioria das vezes faziam asneiras no pedido ou partiam copos por causa da pressão da coisa. alguns tremiam dos pés à cabeça e nem conseguiam articular duas palavritas. para quem estava de fora até tinha muita piada. a primeira vez que eu os atendi não foi diferente. não parti nada. nem pedi nada errado. mas fiz porcaria em todas as outras mesas que estava a atender. a vegetariana comeu frango, quem pediu capirosca bebeu caipirinha e por aí adiante. mas, no final das contas, acho que me saí bem. pelo menos eles não deram por nada. e com o tempo deixei de me preocupar em atendê-los com todos os cuidados do mundo. hoje em dia é a última mesa a que eu vou: clientes que pagam primeiro, patrões depois. se têm pressa levantem-se e tirem eles o cafézinho. e eles é que ganham. mas os meu patrões até são porreiros. fazem festas. pagam bejecas ao pessoal. levam-nos ao bowling uma vez por ano. e dão-nos conselhos, que na maioria das vezes não nos servem para muito no nosso dia-a-dia, mas fica a intenção. é divertido estar com eles. mas divertido, divertido, é vê-los trabalhar. e no lodo então é um festival. mas faz-lhes bem porque nos percebem melhor. lembro-me que quando o restaurante abriu comprámos uns copos de vinho altos, grandes, lindos. mas não cabiam na máquina. mas eram altos, grandes e lindos e por isso tinhamos de os usar. no final do turno tinhamos de os lavar. um a um. à mão. e todos os dias nos queixávamos. um ano depois um dos patrões foi dar uma mãozinha porque faltava um empregado. no dia seguinte mandaram-nos arrumar os copos num armário. e nunca mais os usámos. enfim. quem pode, pode. e é por isso que por muito fixes que sejam os patrões vai sempre haver empregados a falar mal deles enquanto se preparam para o trabalho e bebem mais um cafézinho. oferta do patrão.

sábado, 2 de abril de 2011

mas o homer simpson existe mesmo que eu sei.

ao longo do tempo o homem parece ter encontrado uma explicação para todos os gestos. se cruzamos os braços estamos na defensiva. se esfregamos os olhos temos dúvidas. se tocamos no nariz estamos a mentir. se nos balançamos para trás e para a frente estamos doidos. nos restaurantes também existem gestos dos clientes que nós, empregados de mesa, já tomamos como certos: se fecham o menu já escolheram, se olham fixamente para nós querem pedir alguma coisa, se levantam o copo da imperial vazio é porque querem outra. mas, às vezes, as pessoas enganam. era sexta-feira à noite e o restaurante estava cheio. a abarrotar. sala, cozinha, estava tudo no lodo. eu tomava conta de 8 mesas. 39 pessoas. chegou uma velhinha. sozinha, muito simpática. sentou-se numa das minhas mesa e eu, que sofro deste problema patológico de sentir pena de todas as pessoas que se sentam para comer sozinhas, tentei dar-lhe toda a atenção do mundo. ao lado dela estavam duas raparigas a beber sangria, à espera dos pratos. a velhinha de menu na mão olhava fixamente para mim. ou seja? quer pedir alguma coisa. muito bem. fui ao pé dela saber então o que queria pedir. ela, atrapalhada, respondeu rapidamente que não sabia ler. oh que triste. expliquei-lhe o menu. enquanto isso, as meninas do lado levantaram-se para irem ao wc- juntas,claro. pedi à avózinha um minuto: levantei pratos, corri para a copa, fui ao bar, limpei mesas. e de repente um grito. um grito que fez calar as 130 vozes que se ouviam e que abafou o bonito strangers in the night do sinatra: roubaram a minha mala! epá tu queres ver, já f*%ram a velha! corri até lá e só passado uns minutos é que percebi tudo: ai espera lá, então a velha é que nos f#%eu a nós?! isso mesmo: as meninas da sangria foram fazer o chichi e ficaram sem mala. eu não me apercebi de nada. e foi assim que eu deixei de acreditar nessa treta dos sinais. e criei uns novos: 1. quando um cliente olha fixamente para mim significa que quer pedir alguma coisa? não. está só à coca para ver quando é que o caminho está livre. 2. quando uma velhota vai jantar sem companhia numa sexta-feira às 10 da noite é porque se sente sozinha e eu devo ter pena dela? não, é porque pertence a um gang e está a preparar um arrastão. 3. quando uma avózinha diz que não sabe ler e tem uns óculos na ponta do nariz daqueles que as pessoas usam para ler é porque me está a fazer de parva e eu não percebo porque acredito nos velhos e que o jorge palma já não bebe e que o homer simpson existe mesmo e porque sou muito boa pessoa? sim, é isso mesmo. aí está. mas depois penso: e se a velha manhosa afinal tinha era alzheimer e pegou na mala porque pensava que era dela e foi-se embora porque pensava que já tinha comido? rebuscado? provavelmente. e é por estas e por outras que a mim já ninguém me engana. e os senhores escusam de se pôr a abanar no ar os copos de imperial vazios que eu agora já sei que isso não passa de uma manobra de diversão para a respectiva esposa roubar o saleiro. é para que saibam.

i rest my case

isto que aqui vai é só para reforçar a minha teoria: os chefes têm a mania. quando eram pequeninos os chefes deviam ser aqueles miúdos que acabavam as frases com um quem diz é quem é. ou o primeiro a falar é um ovo podre. resumindo: a última palavra tinha de ser sempre a deles. eu já atendi alguns chefes famosos aí na praça. eles não sabem quem eu sou -não sei porquê- mas eu sei bem quem eles são. já os vi a todos em brindes do expresso, no programa do goucha a fazerem ovos rotos e nas capas dos seus livros com a jaleca impecavelmente limpa. meus caros, eles não são assim, aviso-vos já. sempre que atendi o chefe avillez ele trazia consigo um bloco de notas. comia e escrevia, comia e escrevia. podia até estar a escrever a lista de compras que tinha de fazer: cebolas, natas, papel higiénico, foie gras. mas o gesto era intimidatório. nunca acabou os pratos e sempre que os fui levantar mandou recados para a cozinha. o meu chefe, claro, disse-me para o mandar ir àquele sítio. eu não disse nada. sei que a dor de cotovelo pode resultar nestas coisas. ainda assim acredito que ter um chefe com ar de anton ego na sala não deixaria nenhum linguini à vontade. enfim, sou fã do ratatui, o que é que se pode fazer. a terceira vez que o atendi pediu uma pizza. mas com ingredientes à escolha. ou seja, foi ele que a fez. quero bacon, isto, isto e aquilo. e que tal parar de cozinhar um bocadinho e comer uma das que está no menu? é como o outro. o tal que não tem maneiras. tem um nome difícil mas ainda assim conseguiu ficar famoso porque, dizem as revistas, faz menus de degustação low-cost deliciosos. na tasca lá ao pé da minha casa também fazem isso. primeiro caracóis, depois pipis, depois choco frito, depois pica-pau. rematam com uma bifana. não sei porque é que o senhor abílio também ainda não é famoso. mas adiante. o chefe lu..., lju... esperem aí que eu vou ver no google. ljubomir. atendi-o duas vezes. é daqueles que pede as coisas com o molho à parte. ah, pois é, já viram. quem diria. e pede sem azeite e depois pede o azeite. que é como quem diz quem tempera aqui sou eu que eu é que sei fazer isto bem. é assim mesmo chefe. e depois ele e os amigos pedem os cafés. 3 bicas. e ele vai lá para fora falar ao telemóvel. 10 minutos depois volta: olhe que falta aqui um café. epá não falta nada pá! estava à espera era que te sentasses à mesa para te tirar um quentinho. que mania pá. olha que o café frio faz dor de barriga. e tira lá a colher de pau do meu serviço. e a esta hora já estão os chefes lá está a gamela armada em coiso e tal. mas lá está: quem diz é quem é.

quarta-feira, 16 de março de 2011

o meu cliente preferido já não gosta mais de mim.

eu tinha um cliente preferido. o meu cliente preferido sabia o meu nome e eu sabia o dele. quando ele ia lá almoçar atrasava-me sempre o serviço porque ficávamos muito tempo à conversa. falávamos de livros, de amores, de viagens, de comida e de jornalismo. ele comia sempre a mesma coisa. e só bebia limonada. o meu cliente preferido podia ser meu avô mas os meu colegas diziam que era meu tio. às vezes quando eu não estava lá e ele se esquecia do que gostava de comer os meu colegas ligavam-me e diziam tá aqui o seu tio, o que é que ele come mesmo? mas isto raramente acontecia, porque ele sabia em que dia é que eu folgava e nem ia lá.
ora, eu não sou pessoa de me afeiçoar a clientes. gostava de um ou dois e chegava-me. ainda assim tive de rever esta minha opção, porque o meu cliente preferido trocou-me por outra. partiu-me o coração e agora já não sei se vou poder voltar a confiar noutro cliente desta maneira. tudo começou quando o meu tio deixou de me visitar durante meses a fio. perguntei-me se estaria tudo bem com ele, se estaria doente, se teria perdido a memória, se estaria vivo. depois vi-o passar na rua, de boa saúde. perguntei-me então se teria sido eu, se estaria magoado comigo, se o tiramisú que lhe dei estaria duro. até que um dia ele apareceu por lá. e foi nesse dia que eu descobri que tinha sido trocada. não pela jucilene do restaurante da frente, nem pelo edimar do restaurante do lado. então quem?
ela faz-me tudo. desde que a conheci já engordei e tudo- explicou o meu ex-tio- até me dá tiramisú do bom. então esta é a verdade: fui trocada por uma tal de bimby.
ainda hoje me pergunto onde é que essa gaja trabalha.

sunday bloody sunday.

trabalhar ao domingo ao almoço. valerá a pena? o assunto é sensível. discutido há décadas entre os profissionais da restauração. mas afinal porque é que ninguém quer trabalhar ao domingo ao almoço, perguntava-me eu. será da ressaca? será porque é dia de ir à missa? ao fim de pouco tempo percebi a razão. imaginem o que é um restaurante cheio de pessoas exigentes, picuinhas e alérgicas a tudo e mais alguma coisa. agora imaginem que 50% dessas pessoas têm menos de um metro e trinta. não, não são anões. são crianças. as crianças que, segundo ouvi dizer até são a melhor coisita que há no mundo, são aquelas que se metem debaixo da mesa de pessoas que nunca viram antes, que jogam à macaca enquanto eu tento passar com pratos que me escaldam os punhos e, as bonitas crianças, são aquelas que brincam à apanhada dentro de um restaurante de 50m2 apinhado de carrinhos de bebés. e oops lá se foi a cola-cola direitinha à cabeça do senhor. e lá se foi a minha gorjeta. o trabalho ao domingo ao almoço é a triplicar. senão vejamos: tenho que agradar aos clientes que decidiram não ter filhos e reviram os olhos sempre que uma criança dá um gritinho. um gritinho cheio de ar, mas um gritinho. tenho que fazer o favor à mãe de aquecer a sopita que ela trouxe de casa. não é quente, não é morna: é morninha. e tenho que tirar pedidos e servir pratos enquanto outra mãe anda atrás de mim com uma fralda cheirosa a perguntar-me onde é que pode deixar o presente. o resultado: uma dor de cabeça à pala dos gritinhos, o chão cheio de spaghetti bolognese e as mesas a lembrarem pinturas abstractas à base de café e pacotes de açúcar trucidados. que bom contribuir para estes momentos familiares. mas tenho que dar a mão à palmatória àquelas mães prevenidas que levam dvd’s portáteis para meterem as crianças a ver o noddy e o outro que é construtor enquanto elas comem. é fantástico o poder que um ecrã tem sobre uma criança, por mais pequeno que seja.
mas nem tudo é mau nesta história dos almoços de domingo. porque às vezes é tão chato atender adultos rabugentos que só os putos nos fazem rir. lembro-me de um miúdo, cliente habitual, que no início de um desses domingos me pediu mais manteiga. quando cheguei ao pé dele com a dita o pai disse logo então afonso o que é que se diz? o miúdo olhou para mim e disse muito convicto: mais pão.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

dez vezes cinco

quando eu era pequena erámos cinco lá em casa. à hora do jantar a minha mãe gritava sempre um sonoro meninas podem pôr a mesa. eu, sempre entretida ora a ver a rua sésamo, ora a tentar decidir se a escolha certa era a chave ou o dinheiro, olhava sempre de soslaio para uma das minhas irmãs e lançava um doce importas-te?- depois comiamos, eu ficava com a moleza e cheia de vontade para me estender no sofá a ver se era desta que portugal se safava nos jogos sem fronteiras. quando não era isso era o você decide ou o alf. fosse o que fosse. levantar a mesa? mas agora? e como sou filha do meio e as filhas do meio têm sempre a desculpa que são filhas do meio e isso basta, escapava-me sempre. não era preguiçosa, nada disso. fiz sempre tudo em casa, mas pôr a mesa e levantar a mesa era mesmo muita chato. e todos os dias. duas vezes. bolas.
ora eu não acredito em poderes superiores, mas olhem que se existir mesmo alguém lá em cima a mexer os cordelinhos, o gajo é tramado. tão tramado que o mais provável é ser uma gaja. senão vejamos: todos os dias de manhã eu acordo, tomo banho, visto-me e vou para o restaurante. quando lá chego tenho que limpar 25 mesas, colocar 50 individuais, polir 250 talheres, limpar 80 pratos, dobrar 150 guardanapos, limpar mais de 80 copos e distribuir tudo com alguma simetria. quando acaba o almoço levanto tudo o que há para levantar, limpo as mesas, troco os individuais e repito o processo. pôr as mesas e levantar as mesas é mesmo muita chato. e todos os dias. duas vezes. bolas.
que saudades da amiga olga.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

arroz, papel higiénico e afins: é sexta-feira.

trabalhar num restaurante significa, a maior parte das vezes, que a vida se resume a trabalhar num restaurante. e, a maior parte das vezes, trabalhamos quando os outros se estão a divertir. jantares de aniversário, jantares de natal, dia dos namorados, passagens de ano, despedidas de solteiro, longos jantares de sábado à noite. isto faz com que nos tornemos em pessoas diferentes, com uma visão diferente. normalmente, mais carrancuda.
sexta-feira à noite, restaurante cheio, um grupo de 18. óptimo. excelente. e logo na minha mesa. não me interpretem mal, eu adoro atender grupos, mas só quando o elemento mais novo tem pelo menos uns 50 anos. 18 jovens raparigas a beber sangrias e caipirinhas, que vão à casa de banho de 5 em 5 minutos, falam todas ao mesmo tempo no seu tom mais estridente e demoram uma eternidade para escolher um prato não é bem o que me apetece aturar no fim de uma longa semana. e depois chego eu com os pratos: para quem é o arroz? para quem é o arroz? PARA QUEM É O ARROZ? repararam em mim, finalmente. mas já nenhuma delas sabe quem pediu a porcaria do arroz. volto para trás.
ao mesmo tempo tenho que atender a família feliz da mesa ao lado. criancinhas felizes que correm à volta das mesas, atiram os guardanapos ao chão e tentam gritar
mais alto que as meninas ao lado. os pais sorriem: ai tão crescidos que eles estão. e os meus colegas olham para mim e fazem aquele sorriso de compaixão enquanto correm para ir buscar os talheres a um cliente tive um dia de merda e tu é que as vais pagar. retribuo. a família pede um rancho para 20, mais umas colas e um vinho e siga para bingo que ainda tenho mais casalitos para despachar. entretanto é preciso ir ao wc substituir o rolo de papel higiénico porque as 18 meninas já o gastaram todo, tenho de ir à copa pedir para me despacharem os talheres, preciso de ir ao bar saber onde anda a sangria que pedi para a mesa 2 e, no caminho, ainda tenho que aturar o chefe que diz que não me vai fazer nenhum caril sem molho. ok, tudo controlado. até que há uma jovem que, já um bocado torta, se levanta e grita: ó menina! e o meu arroz?!
texto originalmente pulicado em junho de 2008.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

37, 38, 39...

o temperamento de um chefe de cozinha é mais ou menos o mesmo que o de uma mulher no seu período pré-menstrual.
irrita-se e grita a toda a hora. contraria-lo ou - deus nos valha- corrigi-lo é como assinar uma sentença. lidar com chefes pode ser tão cansativo como lidar com clientes chatos, a diferença é que temos que estar com eles todos os dias. uma regra básica para se ser um bom empregado de mesa inclui assim também um pré-requisito essencial: saber contar, no mínimo, até 30. quando nos preparamos para levar um bife para trás, porque o cliente o acha demasiado salgado, quando temos de ir pedir ao chefe para mudar a sua receita, porque o cliente não gosta de meia dúzia dos ingredientes ou quando temos de pedir para trocar o prato porque nos enganámos no pedido (e só de pensar fiquei com pele de galinha) temos de nos preparar para o ouvir. e aí convém começar a contar 1, 2, 3...trata-se de uma técnica de auto-controlo e meditação para não nos sentirmos tentados a interrompê-lo -houve mesmo quem já tentasse- ou, pior ainda, ignorá-lo. no fim, quando o homem suado e vermelho que está dentro da jaleca finalmente se cala só há três coisas a dizer: obrigado, desculpa ou tens toda a razão. em casos mais sérios é sempre melhor culpar o cliente é um idiota não sabe o que é boa comida.
passo tanto tempo a tentar compreender o seu mau feitio que é quase como um casamento. na verdade, passo mais tempo com eles do que as suas esposas. aturo-os nos momentos de stresse, quando estão deprimidos, quando estão cansados, quando estão bêbados. passo toda a semana com eles e ainda o natal, a passagem de ano, o aniversário, a páscoa e o 5 de outubro. quase que podia existir uma troca de votos: eu, empregada de mesa, aceito-te a ti como chefe de cozinha e prometo aturar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, no lodo e na tristeza, todos os dias da nossa vida, até que o fim do contrato nos separe.
texto originalmente publicado em agosto de 2008.

lost in translation.

imaginem um sítio onde trabalha um alemão, um filipino, um mexicano, três angolanas, um equatoriano, dois bangladeshianos, uma chinesa, um cabo-verdiano, um indiano, meia dúzia de tugas e, claro, uma dúzia de brasileiros. agora imaginem que metade deles não fala português, os brasucas não falam inglês e os banglas nem uma coisa nem outra. parece interessante? nem imaginam. de facto, quando comecei a trabalhar neste restaurante julguei que esta seria uma boa oportunidade para dar uso ao meu inglês e, claro, melhorá-lo. estava enganada. ao fim de uma semana já tinha adoptado a linguagem da classe. e foi assim que transformei um inicial e delicado can you please make me a chicken salad without the onions and put just a little more sauce. thanks. num salad: onions. no. sauce: extra. o segredo está na construção frásica. é o internacionalmente reconhecido curto e grosso. não falha.
mas há mais. este intercâmbio permite-me também ter diálogos muito interessantes com os meus colegas.
um exemplo. eu e o copeiro, um bangladeshiano sorridente, à conversa:
- jalim, quando os empregados novos deixarem aqui os pratos à balda tu dizes-me.
- yes.
-não deixes que eles saiam daqui sem limpar os pratos primeiro.
-yes.
-tens de lhes explicar senão depois quando forem muitos pratos fica aqui uma confusão.
-yes.
- então e preferes que metam os talheres logo na máquina ou ao pé dos pratos?
- yes.
“...”
“...”
- jalim estás a perceber alguma coisa do que eu te estou a dizer ou estás a gozar comigo?
- yes.
ainda bem que nos entendemos.
texto originalmente publicado em julho de 2008.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

copa: compartimento onde se lavam e guardam louças e talheres e, às vezes, se servem refeições.

eu sei que muitos de vocês se perguntam se nós quando levamos os vossos pratitos para a copa atacamos o resto do vosso bife ou a metade da pizza, que ainda por cima tem mesmo ar de que ninguém lhe tocou. pois, meus amigos, se depender de mim, nunca saberão. há coisas místicas nesta profissão e não sou eu que vou dar cabo delas. e a verdade é que a copa para mim também é um sítio mágico e é por isso que é importante não se revelar tudo o que se passa por lá. e não é só lavar louça suja, garanto-vos. também se lava muita roupa.
a copa é o único sítio onde eu consigo estar sem nenhum cliente me ver. ora, para mim, que encaro isto do serviço de mesa como um papel muito importante numa peça da broadway, a copa é assim uma espécie de bastidores. é um cantinho cheio de pratos sujos, restos mal cheirosos e bangladeshianos de avental que eu simplesmente adoro. é para lá que eu vou quando um cliente me trata muito mal e coincidentemente me entra uma coisa para o olho e me faz chorar. é para lá que eu vou quando uma cliente me pergunta uma daquelas coisas absurdas que me fazem rir descontroladamente. e é lá que nos juntamos todos à conversa quando não há clientes e não nos apetece fazer nenhum. foi lá que eu descobri que o meu copeiro é na verdade um engenheiro informático. e foi lá que eu descobri que o ajudante de cozinha era engenheiro naval e que o outro era locutor de rádio, e que o outro que só descascava alhos era enfermeiro. e foi lá que descobri que vieram todos à procura de uma vida melhor. também foi lá que eu descobri que aquilo lá para os lados do bangladesh deve anda muito mauzinho. ninguém me disse mas fiquei com esta fisgada.
a copa também é especial porque é o único sítio onde fazemos o que queremos. como naqueles dias em que me veio o período, e o meu cabelo está esquisito, e o meu namorado está armado em chefe de cozinha e não me apetece mesmo nada olhar para a cara de ninguém. bagh. nesses dias as coisas funcionam mais ou menos assim: atendo todos com simpatia q.b. e um sorrisinho difícil quando mandam o spaghetti para trás porque se esqueceram de pedir para tirar a cebola, claro que sim não há problema nenhum, ora dê cá. e é só passar aquela porta mágica que dá para a copa que eu digo sem sorriso o que na verdade me apetecia ter dito, o que pode incluir, ocasionalmente, palavras feias. e lá sai um cínico oh sim claro o esparguetezinho tem cebola coitadinho, não sabe pedir as coisas tótó, ora dá cá mas é essa porcaria. e dou uns gritos parvos, atiro com os talheres ao ar, o copeiro diz umas palavras sábias que aprendeu no corão e pronto: a copa-templo-clínica terapêutica volta a funcionar. meto o sorrisinho e lá vou.
pergunto-me se no bangladesh também há dias assim.
texto originalmente publicado em abril de 2010.