quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

37, 38, 39...

o temperamento de um chefe de cozinha é mais ou menos o mesmo que o de uma mulher no seu período pré-menstrual.
irrita-se e grita a toda a hora. contraria-lo ou - deus nos valha- corrigi-lo é como assinar uma sentença. lidar com chefes pode ser tão cansativo como lidar com clientes chatos, a diferença é que temos que estar com eles todos os dias. uma regra básica para se ser um bom empregado de mesa inclui assim também um pré-requisito essencial: saber contar, no mínimo, até 30. quando nos preparamos para levar um bife para trás, porque o cliente o acha demasiado salgado, quando temos de ir pedir ao chefe para mudar a sua receita, porque o cliente não gosta de meia dúzia dos ingredientes ou quando temos de pedir para trocar o prato porque nos enganámos no pedido (e só de pensar fiquei com pele de galinha) temos de nos preparar para o ouvir. e aí convém começar a contar 1, 2, 3...trata-se de uma técnica de auto-controlo e meditação para não nos sentirmos tentados a interrompê-lo -houve mesmo quem já tentasse- ou, pior ainda, ignorá-lo. no fim, quando o homem suado e vermelho que está dentro da jaleca finalmente se cala só há três coisas a dizer: obrigado, desculpa ou tens toda a razão. em casos mais sérios é sempre melhor culpar o cliente é um idiota não sabe o que é boa comida.
passo tanto tempo a tentar compreender o seu mau feitio que é quase como um casamento. na verdade, passo mais tempo com eles do que as suas esposas. aturo-os nos momentos de stresse, quando estão deprimidos, quando estão cansados, quando estão bêbados. passo toda a semana com eles e ainda o natal, a passagem de ano, o aniversário, a páscoa e o 5 de outubro. quase que podia existir uma troca de votos: eu, empregada de mesa, aceito-te a ti como chefe de cozinha e prometo aturar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, no lodo e na tristeza, todos os dias da nossa vida, até que o fim do contrato nos separe.
texto originalmente publicado em agosto de 2008.

lost in translation.

imaginem um sítio onde trabalha um alemão, um filipino, um mexicano, três angolanas, um equatoriano, dois bangladeshianos, uma chinesa, um cabo-verdiano, um indiano, meia dúzia de tugas e, claro, uma dúzia de brasileiros. agora imaginem que metade deles não fala português, os brasucas não falam inglês e os banglas nem uma coisa nem outra. parece interessante? nem imaginam. de facto, quando comecei a trabalhar neste restaurante julguei que esta seria uma boa oportunidade para dar uso ao meu inglês e, claro, melhorá-lo. estava enganada. ao fim de uma semana já tinha adoptado a linguagem da classe. e foi assim que transformei um inicial e delicado can you please make me a chicken salad without the onions and put just a little more sauce. thanks. num salad: onions. no. sauce: extra. o segredo está na construção frásica. é o internacionalmente reconhecido curto e grosso. não falha.
mas há mais. este intercâmbio permite-me também ter diálogos muito interessantes com os meus colegas.
um exemplo. eu e o copeiro, um bangladeshiano sorridente, à conversa:
- jalim, quando os empregados novos deixarem aqui os pratos à balda tu dizes-me.
- yes.
-não deixes que eles saiam daqui sem limpar os pratos primeiro.
-yes.
-tens de lhes explicar senão depois quando forem muitos pratos fica aqui uma confusão.
-yes.
- então e preferes que metam os talheres logo na máquina ou ao pé dos pratos?
- yes.
“...”
“...”
- jalim estás a perceber alguma coisa do que eu te estou a dizer ou estás a gozar comigo?
- yes.
ainda bem que nos entendemos.
texto originalmente publicado em julho de 2008.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

copa: compartimento onde se lavam e guardam louças e talheres e, às vezes, se servem refeições.

eu sei que muitos de vocês se perguntam se nós quando levamos os vossos pratitos para a copa atacamos o resto do vosso bife ou a metade da pizza, que ainda por cima tem mesmo ar de que ninguém lhe tocou. pois, meus amigos, se depender de mim, nunca saberão. há coisas místicas nesta profissão e não sou eu que vou dar cabo delas. e a verdade é que a copa para mim também é um sítio mágico e é por isso que é importante não se revelar tudo o que se passa por lá. e não é só lavar louça suja, garanto-vos. também se lava muita roupa.
a copa é o único sítio onde eu consigo estar sem nenhum cliente me ver. ora, para mim, que encaro isto do serviço de mesa como um papel muito importante numa peça da broadway, a copa é assim uma espécie de bastidores. é um cantinho cheio de pratos sujos, restos mal cheirosos e bangladeshianos de avental que eu simplesmente adoro. é para lá que eu vou quando um cliente me trata muito mal e coincidentemente me entra uma coisa para o olho e me faz chorar. é para lá que eu vou quando uma cliente me pergunta uma daquelas coisas absurdas que me fazem rir descontroladamente. e é lá que nos juntamos todos à conversa quando não há clientes e não nos apetece fazer nenhum. foi lá que eu descobri que o meu copeiro é na verdade um engenheiro informático. e foi lá que eu descobri que o ajudante de cozinha era engenheiro naval e que o outro era locutor de rádio, e que o outro que só descascava alhos era enfermeiro. e foi lá que descobri que vieram todos à procura de uma vida melhor. também foi lá que eu descobri que aquilo lá para os lados do bangladesh deve anda muito mauzinho. ninguém me disse mas fiquei com esta fisgada.
a copa também é especial porque é o único sítio onde fazemos o que queremos. como naqueles dias em que me veio o período, e o meu cabelo está esquisito, e o meu namorado está armado em chefe de cozinha e não me apetece mesmo nada olhar para a cara de ninguém. bagh. nesses dias as coisas funcionam mais ou menos assim: atendo todos com simpatia q.b. e um sorrisinho difícil quando mandam o spaghetti para trás porque se esqueceram de pedir para tirar a cebola, claro que sim não há problema nenhum, ora dê cá. e é só passar aquela porta mágica que dá para a copa que eu digo sem sorriso o que na verdade me apetecia ter dito, o que pode incluir, ocasionalmente, palavras feias. e lá sai um cínico oh sim claro o esparguetezinho tem cebola coitadinho, não sabe pedir as coisas tótó, ora dá cá mas é essa porcaria. e dou uns gritos parvos, atiro com os talheres ao ar, o copeiro diz umas palavras sábias que aprendeu no corão e pronto: a copa-templo-clínica terapêutica volta a funcionar. meto o sorrisinho e lá vou.
pergunto-me se no bangladesh também há dias assim.
texto originalmente publicado em abril de 2010.