quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

37, 38, 39...

o temperamento de um chefe de cozinha é mais ou menos o mesmo que o de uma mulher no seu período pré-menstrual.
irrita-se e grita a toda a hora. contraria-lo ou - deus nos valha- corrigi-lo é como assinar uma sentença. lidar com chefes pode ser tão cansativo como lidar com clientes chatos, a diferença é que temos que estar com eles todos os dias. uma regra básica para se ser um bom empregado de mesa inclui assim também um pré-requisito essencial: saber contar, no mínimo, até 30. quando nos preparamos para levar um bife para trás, porque o cliente o acha demasiado salgado, quando temos de ir pedir ao chefe para mudar a sua receita, porque o cliente não gosta de meia dúzia dos ingredientes ou quando temos de pedir para trocar o prato porque nos enganámos no pedido (e só de pensar fiquei com pele de galinha) temos de nos preparar para o ouvir. e aí convém começar a contar 1, 2, 3...trata-se de uma técnica de auto-controlo e meditação para não nos sentirmos tentados a interrompê-lo -houve mesmo quem já tentasse- ou, pior ainda, ignorá-lo. no fim, quando o homem suado e vermelho que está dentro da jaleca finalmente se cala só há três coisas a dizer: obrigado, desculpa ou tens toda a razão. em casos mais sérios é sempre melhor culpar o cliente é um idiota não sabe o que é boa comida.
passo tanto tempo a tentar compreender o seu mau feitio que é quase como um casamento. na verdade, passo mais tempo com eles do que as suas esposas. aturo-os nos momentos de stresse, quando estão deprimidos, quando estão cansados, quando estão bêbados. passo toda a semana com eles e ainda o natal, a passagem de ano, o aniversário, a páscoa e o 5 de outubro. quase que podia existir uma troca de votos: eu, empregada de mesa, aceito-te a ti como chefe de cozinha e prometo aturar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, no lodo e na tristeza, todos os dias da nossa vida, até que o fim do contrato nos separe.
texto originalmente publicado em agosto de 2008.

9 comentários:

Sweet Moments disse...

Parabéns pelo texto e parabéns pela santa paciência que tem de ter todos os dias no seu trabalho.
Haja paciência para nos aturar a todos ... :-)

renato de Sá disse...

5*****

Anónimo disse...

ó menina, se nesta casa agora só se comem é restos, ainda por cima retardados de 2008, o mais sensato será fechar a porta. A tua sorte é não haver uma ASAE dos blogues porque aqui só servem postas fora de prazo.
Blhargh

lisbon new-yorker disse...

lool lindo! Também tenho de adoptar a técnica do 1,2,3...ando desbocada que dói!

menina disse...

ó anónimo,
caso não saiba eu não posso trabalhar até a minha maria nascer...e tenho pena mas não invento estórias, porque a piada está mesmo aí. mas olhe não seja por isso: considere a porta fechada. afinal o que é que vem cá fazer não é? e já agora, blhargh para si também..

Menina do cantinho disse...

Adorei os votos que deixaste no final.
Quer dizer, adorei todo o texto.

Não importa que seja de 2008, para mim que nunca vi isto na vida é como se fosse de ontem. Por isso continua, prefiro ler passagens de 2008 a esperar que nasça a filhota.

Parabéns.

Beijinhos

cristiana disse...

é o que sempre me pergunto quando os clientes saem a reclamar: por que é que voltam então?! tem graça. cada dia reclamam de uma coisa diferente, mas lá estão todas as semanas, religiosamente. epa, é mesmo uma arte servir à mesa. e lidar com a cozinha. e afinar copos. e entrar no lodo. eu gosto do meu trabalho, mas ainda tenho esperança na minha Psicologia. Bem, ainda não vou a meio do curso, por isso é melhor mesmo continuar a achar graça no que faço. um dia ainda vou sentir falta de servir à mesa. muita falta, acho eu. parabéns pelo blog, vera! estás mesmo de parabéns. beijinhos e força na bandeja!

Cris

Adoroler disse...

Não ligues às "bocas", continua!
Eu li todos em 2008 e 2009, e continuo a adorar (re)ler!

MartaP. disse...

Err como te compreendo.
identifico me tanto com os teus textos. é bom saber qe nao estou sozinha quando nao tenho mais paciencia para o chefe e para os clientes. ha dias assim, e agora sei que nao estou sozinha.