sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

copa: compartimento onde se lavam e guardam louças e talheres e, às vezes, se servem refeições.

eu sei que muitos de vocês se perguntam se nós quando levamos os vossos pratitos para a copa atacamos o resto do vosso bife ou a metade da pizza, que ainda por cima tem mesmo ar de que ninguém lhe tocou. pois, meus amigos, se depender de mim, nunca saberão. há coisas místicas nesta profissão e não sou eu que vou dar cabo delas. e a verdade é que a copa para mim também é um sítio mágico e é por isso que é importante não se revelar tudo o que se passa por lá. e não é só lavar louça suja, garanto-vos. também se lava muita roupa.
a copa é o único sítio onde eu consigo estar sem nenhum cliente me ver. ora, para mim, que encaro isto do serviço de mesa como um papel muito importante numa peça da broadway, a copa é assim uma espécie de bastidores. é um cantinho cheio de pratos sujos, restos mal cheirosos e bangladeshianos de avental que eu simplesmente adoro. é para lá que eu vou quando um cliente me trata muito mal e coincidentemente me entra uma coisa para o olho e me faz chorar. é para lá que eu vou quando uma cliente me pergunta uma daquelas coisas absurdas que me fazem rir descontroladamente. e é lá que nos juntamos todos à conversa quando não há clientes e não nos apetece fazer nenhum. foi lá que eu descobri que o meu copeiro é na verdade um engenheiro informático. e foi lá que eu descobri que o ajudante de cozinha era engenheiro naval e que o outro era locutor de rádio, e que o outro que só descascava alhos era enfermeiro. e foi lá que descobri que vieram todos à procura de uma vida melhor. também foi lá que eu descobri que aquilo lá para os lados do bangladesh deve anda muito mauzinho. ninguém me disse mas fiquei com esta fisgada.
a copa também é especial porque é o único sítio onde fazemos o que queremos. como naqueles dias em que me veio o período, e o meu cabelo está esquisito, e o meu namorado está armado em chefe de cozinha e não me apetece mesmo nada olhar para a cara de ninguém. bagh. nesses dias as coisas funcionam mais ou menos assim: atendo todos com simpatia q.b. e um sorrisinho difícil quando mandam o spaghetti para trás porque se esqueceram de pedir para tirar a cebola, claro que sim não há problema nenhum, ora dê cá. e é só passar aquela porta mágica que dá para a copa que eu digo sem sorriso o que na verdade me apetecia ter dito, o que pode incluir, ocasionalmente, palavras feias. e lá sai um cínico oh sim claro o esparguetezinho tem cebola coitadinho, não sabe pedir as coisas tótó, ora dá cá mas é essa porcaria. e dou uns gritos parvos, atiro com os talheres ao ar, o copeiro diz umas palavras sábias que aprendeu no corão e pronto: a copa-templo-clínica terapêutica volta a funcionar. meto o sorrisinho e lá vou.
pergunto-me se no bangladesh também há dias assim.
texto originalmente publicado em abril de 2010.

12 comentários:

S* disse...

Ui... e fazem como nos filmes, cospem para o prato?

Cláudio disse...

eu passava a maior parte do tempo la...basicamente é o sitio de todos...

Pedro Paiva disse...

Todas as profissões deveriam ter uma copa!
É um espaço importante para o equilibrio mental, muitas vezes posto em causa!
Cptos

Alex disse...

pssht...ó menina!
gostaria de me apresentar...
chamo-me (Alex)andre Bernardo, tenho 35 anos e sou empregado de mesa, certificado pelo IEFP desde 1993, trabalho no Porto e vivo em Gaia.
é com muito carinho que venho aqui, de quando em vez, espreitar as tuas peripécias.
a vontade de comentar os post varia, ora me identifico com as passagens que contas, ora não; não qd se trata de casos específicos, ou do pessoal, ou da casa onde trabalhas.
mas hoje não resisti, por não me identificar e por acreditar não ser verdade a forma generalizada como expuseste o tema.
acredito que com os teus comentários não queiras ofender ninguém, acredito mesmo, mas tb acredito que tens sensibilidade suficiente para perceber que não deves generalizar as situações que se passam no teu local de trabalho.
mete-me nojo pensar que há quem aproveite os restos de comida, não tendo certeza se o cliente lhe tocou ou não.
o restaurante onde trabalho funciona tanto com serviço à americana, como à inglesa indirecto e se o cliente pedir pousamos a travessa na mesa, ou seja à francesa (sei que conheces os termos), mas o predominante é o serviço à inglesa indirecto, ou seja, levamos o serviço à mesa em carrinhos, e como não vamos estar a encher o prato, o que sobra vem para a estufa para não ficar frio.
o normal é as pessoas não repetirem, não por falta de insistência, antes pq realmente servimos bem.
como deves imaginar sobra n de comida, e todos comem conforme o gosto e apetite, mas principalmente pq sabemos que ng lhe tocou para além de nós mesmos.
aliás tenho uma ideia já à muitos anos, felizmente não é única e parece que vai avançar, que é a de embalar toda a comida que sobra dos milhares de restaurantes existentes em Portugal e entrega-la em condições de higiene aceitáveis e dignas a instituições de caridade que sirvam refeições.
se te ocorrer alguma forma brilhante de promover esta ideia, tu manda pá praça.
de resto as pessoas já são mesquinhas e esquisitinhas o suficiente para ainda lhe andarem a meter mais macaquinhos na cabeça.

já agora, há dias assim em todo o lado.

bjs e abraços

Angelo disse...

Mais um texto magnífico!

O cozinheiro solitário disse...

Olá a todos os que vão ler este comentário neste blogue ou noutro muito bom como este. Pois é, estou encantado com todos estes posts bem feitos, quase que desenhados. Pois, eu gostava de fazer igual, mas não consigo. O meu dilema agora é cozinhar… A vida é dura e obrigou-me a morar sozinho, e a cozinha não é de todo o meu local favorito. Mas estou a tentar conhecê-la, mas as aventuras têm sido imensas. Fiz um blog humilde para colocá-las em forma de crónica pouco extensas. Gostava muito que todos vocês o visitassem e se possível o seguissem. É que tentar cozinhar e depois não ser ajudado, é algo muita mau.
Cumprimentos a todos!

http://tenhosalfaltamecolher.blogspot.com/

pipi das meias altas disse...

:)

miúda do lado disse...

adorei... Tbm já trab em Hotelaria e sei que a copa é o templo...

Convido-te a passar no meu blog também e deixares a tua opinião.

http://porta201.blogspot.com

Beijinhos e continua

Anónimo disse...

Gostaria de a convidar a vir apresentar o seu livro no nosso restaurante em S. Miguel-Açores.

Teria muito gosto em fazer um jantar temático com a sua presença.

o nosso email.
o_gato_mia@hotmail.com

com os melhores cumprimentos
Rui Ramos

Joana BFS disse...

nao conhecia, gostei de conhecer. vou seguir!

N's disse...

Copa... Copa...

Cada profissão com seus segredos :)

JOAO disse...

O ALEX ARMOU-SE EM ARTISTA E DISSE QUE O SERVIÇO Á FRANCESA É POR A TRAVESSA EM CIMA DA MESA?
MAS EM QUE ESCOLA É QUE ESSE CROMO ANDOU?
SENCERAMENTE...
HÓ CROMO Á FRANCESA APRESENTAS A TRAVESSA PELO LADO ESQUERDA DAS PESSOAS E ELAS É QUE SE SERVEM.
VOLTA PARA A ESCOLA E APRENDE ALGUMA COISA