quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

lost in translation.

imaginem um sítio onde trabalha um alemão, um filipino, um mexicano, três angolanas, um equatoriano, dois bangladeshianos, uma chinesa, um cabo-verdiano, um indiano, meia dúzia de tugas e, claro, uma dúzia de brasileiros. agora imaginem que metade deles não fala português, os brasucas não falam inglês e os banglas nem uma coisa nem outra. parece interessante? nem imaginam. de facto, quando comecei a trabalhar neste restaurante julguei que esta seria uma boa oportunidade para dar uso ao meu inglês e, claro, melhorá-lo. estava enganada. ao fim de uma semana já tinha adoptado a linguagem da classe. e foi assim que transformei um inicial e delicado can you please make me a chicken salad without the onions and put just a little more sauce. thanks. num salad: onions. no. sauce: extra. o segredo está na construção frásica. é o internacionalmente reconhecido curto e grosso. não falha.
mas há mais. este intercâmbio permite-me também ter diálogos muito interessantes com os meus colegas.
um exemplo. eu e o copeiro, um bangladeshiano sorridente, à conversa:
- jalim, quando os empregados novos deixarem aqui os pratos à balda tu dizes-me.
- yes.
-não deixes que eles saiam daqui sem limpar os pratos primeiro.
-yes.
-tens de lhes explicar senão depois quando forem muitos pratos fica aqui uma confusão.
-yes.
- então e preferes que metam os talheres logo na máquina ou ao pé dos pratos?
- yes.
“...”
“...”
- jalim estás a perceber alguma coisa do que eu te estou a dizer ou estás a gozar comigo?
- yes.
ainda bem que nos entendemos.
texto originalmente publicado em julho de 2008.

4 comentários:

Anónimo disse...

Trabalhei durante um tempo na loja Select, do Rato, ali na avenida Alvares Cabral. Ainda me habituava com o português de Portugal. Certa vez uma velhota chega e me pede o tradicional café com copo d'água que os portugueses tanto adoram. Na sequência me diz algo como: "doizixotuxçentûs, faizfavoire". 2.800, senhora?. "Não, doizixotuxçentûs, faizfavoire". Oh, catso, que quer essa velhota? Perguntei então ao gerente, um português, que na hora entendeu o lance. Ela queria apenas dois adoçantes.

W.Menon
Marília-São Paulo-Brasil

portugalnocoração disse...

they can't say no, it's not polite! love your blog!
identifiquei-me imenso com esta crónica mesmo que nao tenha a tua profissão! mas devo-te dizer que por aqui os empregados de mesa nao tem metade da simpatia dos portugueses!

sara disse...

haha! yes!

ELLA disse...

eish adorei o teu blog, é uma lufada de ar fresco na blogsesfera!
vou passar ca mais vezes, oh menina!