domingo, 13 de fevereiro de 2011

dez vezes cinco

quando eu era pequena erámos cinco lá em casa. à hora do jantar a minha mãe gritava sempre um sonoro meninas podem pôr a mesa. eu, sempre entretida ora a ver a rua sésamo, ora a tentar decidir se a escolha certa era a chave ou o dinheiro, olhava sempre de soslaio para uma das minhas irmãs e lançava um doce importas-te?- depois comiamos, eu ficava com a moleza e cheia de vontade para me estender no sofá a ver se era desta que portugal se safava nos jogos sem fronteiras. quando não era isso era o você decide ou o alf. fosse o que fosse. levantar a mesa? mas agora? e como sou filha do meio e as filhas do meio têm sempre a desculpa que são filhas do meio e isso basta, escapava-me sempre. não era preguiçosa, nada disso. fiz sempre tudo em casa, mas pôr a mesa e levantar a mesa era mesmo muita chato. e todos os dias. duas vezes. bolas.
ora eu não acredito em poderes superiores, mas olhem que se existir mesmo alguém lá em cima a mexer os cordelinhos, o gajo é tramado. tão tramado que o mais provável é ser uma gaja. senão vejamos: todos os dias de manhã eu acordo, tomo banho, visto-me e vou para o restaurante. quando lá chego tenho que limpar 25 mesas, colocar 50 individuais, polir 250 talheres, limpar 80 pratos, dobrar 150 guardanapos, limpar mais de 80 copos e distribuir tudo com alguma simetria. quando acaba o almoço levanto tudo o que há para levantar, limpo as mesas, troco os individuais e repito o processo. pôr as mesas e levantar as mesas é mesmo muita chato. e todos os dias. duas vezes. bolas.
que saudades da amiga olga.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

arroz, papel higiénico e afins: é sexta-feira.

trabalhar num restaurante significa, a maior parte das vezes, que a vida se resume a trabalhar num restaurante. e, a maior parte das vezes, trabalhamos quando os outros se estão a divertir. jantares de aniversário, jantares de natal, dia dos namorados, passagens de ano, despedidas de solteiro, longos jantares de sábado à noite. isto faz com que nos tornemos em pessoas diferentes, com uma visão diferente. normalmente, mais carrancuda.
sexta-feira à noite, restaurante cheio, um grupo de 18. óptimo. excelente. e logo na minha mesa. não me interpretem mal, eu adoro atender grupos, mas só quando o elemento mais novo tem pelo menos uns 50 anos. 18 jovens raparigas a beber sangrias e caipirinhas, que vão à casa de banho de 5 em 5 minutos, falam todas ao mesmo tempo no seu tom mais estridente e demoram uma eternidade para escolher um prato não é bem o que me apetece aturar no fim de uma longa semana. e depois chego eu com os pratos: para quem é o arroz? para quem é o arroz? PARA QUEM É O ARROZ? repararam em mim, finalmente. mas já nenhuma delas sabe quem pediu a porcaria do arroz. volto para trás.
ao mesmo tempo tenho que atender a família feliz da mesa ao lado. criancinhas felizes que correm à volta das mesas, atiram os guardanapos ao chão e tentam gritar
mais alto que as meninas ao lado. os pais sorriem: ai tão crescidos que eles estão. e os meus colegas olham para mim e fazem aquele sorriso de compaixão enquanto correm para ir buscar os talheres a um cliente tive um dia de merda e tu é que as vais pagar. retribuo. a família pede um rancho para 20, mais umas colas e um vinho e siga para bingo que ainda tenho mais casalitos para despachar. entretanto é preciso ir ao wc substituir o rolo de papel higiénico porque as 18 meninas já o gastaram todo, tenho de ir à copa pedir para me despacharem os talheres, preciso de ir ao bar saber onde anda a sangria que pedi para a mesa 2 e, no caminho, ainda tenho que aturar o chefe que diz que não me vai fazer nenhum caril sem molho. ok, tudo controlado. até que há uma jovem que, já um bocado torta, se levanta e grita: ó menina! e o meu arroz?!
texto originalmente pulicado em junho de 2008.