quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

arroz, papel higiénico e afins: é sexta-feira.

trabalhar num restaurante significa, a maior parte das vezes, que a vida se resume a trabalhar num restaurante. e, a maior parte das vezes, trabalhamos quando os outros se estão a divertir. jantares de aniversário, jantares de natal, dia dos namorados, passagens de ano, despedidas de solteiro, longos jantares de sábado à noite. isto faz com que nos tornemos em pessoas diferentes, com uma visão diferente. normalmente, mais carrancuda.
sexta-feira à noite, restaurante cheio, um grupo de 18. óptimo. excelente. e logo na minha mesa. não me interpretem mal, eu adoro atender grupos, mas só quando o elemento mais novo tem pelo menos uns 50 anos. 18 jovens raparigas a beber sangrias e caipirinhas, que vão à casa de banho de 5 em 5 minutos, falam todas ao mesmo tempo no seu tom mais estridente e demoram uma eternidade para escolher um prato não é bem o que me apetece aturar no fim de uma longa semana. e depois chego eu com os pratos: para quem é o arroz? para quem é o arroz? PARA QUEM É O ARROZ? repararam em mim, finalmente. mas já nenhuma delas sabe quem pediu a porcaria do arroz. volto para trás.
ao mesmo tempo tenho que atender a família feliz da mesa ao lado. criancinhas felizes que correm à volta das mesas, atiram os guardanapos ao chão e tentam gritar
mais alto que as meninas ao lado. os pais sorriem: ai tão crescidos que eles estão. e os meus colegas olham para mim e fazem aquele sorriso de compaixão enquanto correm para ir buscar os talheres a um cliente tive um dia de merda e tu é que as vais pagar. retribuo. a família pede um rancho para 20, mais umas colas e um vinho e siga para bingo que ainda tenho mais casalitos para despachar. entretanto é preciso ir ao wc substituir o rolo de papel higiénico porque as 18 meninas já o gastaram todo, tenho de ir à copa pedir para me despacharem os talheres, preciso de ir ao bar saber onde anda a sangria que pedi para a mesa 2 e, no caminho, ainda tenho que aturar o chefe que diz que não me vai fazer nenhum caril sem molho. ok, tudo controlado. até que há uma jovem que, já um bocado torta, se levanta e grita: ó menina! e o meu arroz?!
texto originalmente pulicado em junho de 2008.

12 comentários:

lisbon new-yorker disse...

isto dá com qualquer uma em louca!

Left disse...

Lamento por ti!!

Artes da Velha disse...

Agora percebo a reacção da empregada de mesa , quando lhe pedi um bife sem molho ... primeiro torceu o nariz, disse que não tinha, eu disse-lhe que trouxesse um bife à café, mas sem molho, ela voltou 30 segundos depois para dizer que não podia ser ... imagino o que o chefe não "estrabuchou" naquela cozinha .. mas eu só queria um bife, simples sem a porcaria do molho ...

Herético disse...

sempre com os melhores clientes... ;)

sarapintas disse...

Descobri este blog recentemente e foi (é!) uma lufada de ar fresco nas minhas manhãs dificeis. O paralelo que se estabelece entre o "nossos" chefes, colegas e clientes é estrondoso e no entanto trabalhamos em áreas absolutamente díspares. Tenho pena que não haja um texto novo todos os dias, mas divirto-me imenso a reler os antigos, uma e outra vez.
Para a menina, os meus parabéns e obrigada por me lavar a alma sempre que cá venho e saio a sorrir.

Alexandre Bernardo disse...

...é simples;
dizes que já o trouxeste e que o pousaste na mesa, vai haver alguém, do grupo estridente, que vai dizer que se lembra de realmente ter visto a empregada a trazer arroz para a mesa. há sempre alguém a afirmar coisas que nunca aconteceram...
nisto ficam todos curiosos, mas bloqueados pelo álcool, em saber quem é que comeu o raio do arroz, já nem põem em causa se o arroz veio ou não,
se for precisos mais arroz? cobra-se outra dose.
com o tempo as pessoas aprendem a ter um pouco de humildade e sujeitam-se a responder a uma pergunta simples, mesmo sob o efeito de grupo

matilde disse...

Sempre que faço parte desses grupos estridentes e desagradáveis tento ajudar o desgraçado do empregado de mesa que tem de nos atender, sei bem como grupos podem ser irritantes. Já agora, um truque: tenta meter conversa com os "pastores" desses rebanhos, é que se eles gostarem de ti controlam os restantes descontrolados )

Meio Cheio disse...

ah a vida laboral hoteleira...agradavel não é? Como te compreendo...por vezes apetece enfiar-lhes um arroz num certo sitio (cala-te boca que sou miuda de bons modos). Enfim...respirar fundo e parar de contar rugas dadas por clientes xD
Beijo e bom fim de semana

Angelo disse...

Essas meninas histéricas são do pior.
Mas pior é ver uns paizinhos nas tintas para a sua criacinha que anda aos pulos e depois lá é cuidada pela senhora do restaurante! Uma vergonha!

Mel Rose disse...

Hahaha, acontece-me isso constantemente também! Nao há mais nada agradável do que um grupo de idosos, sempre bem dispostos, com brincadeiras e ainda recebemos uma grojeta das boas :)

Anónimo disse...

Por favor!
Quero pedir te um favor, menina:
Aí para os teus lados há (ou houve??) um restaurante decorado com azulejos do século XVII, dado que outrora foi uma capela. Sabes dizer-me onde fica? Gostava de lá ir e mostrar à minha sobrinha.
Eu saei que te interessas por estas coisas. Julio Reis

menina disse...

júlio: será a cervejaria da trindade aqui no chiado?