quarta-feira, 16 de março de 2011

o meu cliente preferido já não gosta mais de mim.

eu tinha um cliente preferido. o meu cliente preferido sabia o meu nome e eu sabia o dele. quando ele ia lá almoçar atrasava-me sempre o serviço porque ficávamos muito tempo à conversa. falávamos de livros, de amores, de viagens, de comida e de jornalismo. ele comia sempre a mesma coisa. e só bebia limonada. o meu cliente preferido podia ser meu avô mas os meu colegas diziam que era meu tio. às vezes quando eu não estava lá e ele se esquecia do que gostava de comer os meu colegas ligavam-me e diziam tá aqui o seu tio, o que é que ele come mesmo? mas isto raramente acontecia, porque ele sabia em que dia é que eu folgava e nem ia lá.
ora, eu não sou pessoa de me afeiçoar a clientes. gostava de um ou dois e chegava-me. ainda assim tive de rever esta minha opção, porque o meu cliente preferido trocou-me por outra. partiu-me o coração e agora já não sei se vou poder voltar a confiar noutro cliente desta maneira. tudo começou quando o meu tio deixou de me visitar durante meses a fio. perguntei-me se estaria tudo bem com ele, se estaria doente, se teria perdido a memória, se estaria vivo. depois vi-o passar na rua, de boa saúde. perguntei-me então se teria sido eu, se estaria magoado comigo, se o tiramisú que lhe dei estaria duro. até que um dia ele apareceu por lá. e foi nesse dia que eu descobri que tinha sido trocada. não pela jucilene do restaurante da frente, nem pelo edimar do restaurante do lado. então quem?
ela faz-me tudo. desde que a conheci já engordei e tudo- explicou o meu ex-tio- até me dá tiramisú do bom. então esta é a verdade: fui trocada por uma tal de bimby.
ainda hoje me pergunto onde é que essa gaja trabalha.

sunday bloody sunday.

trabalhar ao domingo ao almoço. valerá a pena? o assunto é sensível. discutido há décadas entre os profissionais da restauração. mas afinal porque é que ninguém quer trabalhar ao domingo ao almoço, perguntava-me eu. será da ressaca? será porque é dia de ir à missa? ao fim de pouco tempo percebi a razão. imaginem o que é um restaurante cheio de pessoas exigentes, picuinhas e alérgicas a tudo e mais alguma coisa. agora imaginem que 50% dessas pessoas têm menos de um metro e trinta. não, não são anões. são crianças. as crianças que, segundo ouvi dizer até são a melhor coisita que há no mundo, são aquelas que se metem debaixo da mesa de pessoas que nunca viram antes, que jogam à macaca enquanto eu tento passar com pratos que me escaldam os punhos e, as bonitas crianças, são aquelas que brincam à apanhada dentro de um restaurante de 50m2 apinhado de carrinhos de bebés. e oops lá se foi a cola-cola direitinha à cabeça do senhor. e lá se foi a minha gorjeta. o trabalho ao domingo ao almoço é a triplicar. senão vejamos: tenho que agradar aos clientes que decidiram não ter filhos e reviram os olhos sempre que uma criança dá um gritinho. um gritinho cheio de ar, mas um gritinho. tenho que fazer o favor à mãe de aquecer a sopita que ela trouxe de casa. não é quente, não é morna: é morninha. e tenho que tirar pedidos e servir pratos enquanto outra mãe anda atrás de mim com uma fralda cheirosa a perguntar-me onde é que pode deixar o presente. o resultado: uma dor de cabeça à pala dos gritinhos, o chão cheio de spaghetti bolognese e as mesas a lembrarem pinturas abstractas à base de café e pacotes de açúcar trucidados. que bom contribuir para estes momentos familiares. mas tenho que dar a mão à palmatória àquelas mães prevenidas que levam dvd’s portáteis para meterem as crianças a ver o noddy e o outro que é construtor enquanto elas comem. é fantástico o poder que um ecrã tem sobre uma criança, por mais pequeno que seja.
mas nem tudo é mau nesta história dos almoços de domingo. porque às vezes é tão chato atender adultos rabugentos que só os putos nos fazem rir. lembro-me de um miúdo, cliente habitual, que no início de um desses domingos me pediu mais manteiga. quando cheguei ao pé dele com a dita o pai disse logo então afonso o que é que se diz? o miúdo olhou para mim e disse muito convicto: mais pão.