sábado, 16 de abril de 2011

e finalmente: os patrões.

algumas pessoas perguntam-me porque é que eu nunca escrevo sobre os meus patrões. então, mas não se está mesmo a ver? é porque eles são pessoas espectaculares, impecáveis, do melhor que há. além disso, eles sabem que eu tenho este blogue. quando eu comecei a trabalhar para eles, já há 3 anos, percebi que toda a gente lhes tinha muito respeitinho. mas assim um respeitinho um bocado aldrabado, diga-se. os meus colegas diziam-me que sempre que eu visse um deles a chegar tinha de me manter ocupada. então o esquema era este: sempre que um deles entrava no restaurante cada um dos empregados agarrava-se ao que podia. um atirava-se aos guardanapos, outro ajeitava os talheres em todas as mesas, outro metia-se a polir copos polidos. eu sentia sempre que ficava no meio da sala a olhar para o ar, até que com o tempo também me habituei a enganá-los (não é bem enganar, vá, que eu trabalhava muito sim. juro que sim. acho que até merecia um aumentozinho) bem depressa. e até quando eu estava mesmo ocupada a trabalhar os meus colegas passavam por mim e diziam baixinho: isso mesmo, ‘tás a disfarçar bem! ah, ‘tá bem. e depois havia ainda aquela coisa de ninguém os querer atender. quando eles chegavam para jantar olhávamos sempre de esguelha uns para os outros, enquanto pensávamos quem seria a vítima. a tarefa calhava sempre aos recém-chegados. na maioria das vezes faziam asneiras no pedido ou partiam copos por causa da pressão da coisa. alguns tremiam dos pés à cabeça e nem conseguiam articular duas palavritas. para quem estava de fora até tinha muita piada. a primeira vez que eu os atendi não foi diferente. não parti nada. nem pedi nada errado. mas fiz porcaria em todas as outras mesas que estava a atender. a vegetariana comeu frango, quem pediu capirosca bebeu caipirinha e por aí adiante. mas, no final das contas, acho que me saí bem. pelo menos eles não deram por nada. e com o tempo deixei de me preocupar em atendê-los com todos os cuidados do mundo. hoje em dia é a última mesa a que eu vou: clientes que pagam primeiro, patrões depois. se têm pressa levantem-se e tirem eles o cafézinho. e eles é que ganham. mas os meu patrões até são porreiros. fazem festas. pagam bejecas ao pessoal. levam-nos ao bowling uma vez por ano. e dão-nos conselhos, que na maioria das vezes não nos servem para muito no nosso dia-a-dia, mas fica a intenção. é divertido estar com eles. mas divertido, divertido, é vê-los trabalhar. e no lodo então é um festival. mas faz-lhes bem porque nos percebem melhor. lembro-me que quando o restaurante abriu comprámos uns copos de vinho altos, grandes, lindos. mas não cabiam na máquina. mas eram altos, grandes e lindos e por isso tinhamos de os usar. no final do turno tinhamos de os lavar. um a um. à mão. e todos os dias nos queixávamos. um ano depois um dos patrões foi dar uma mãozinha porque faltava um empregado. no dia seguinte mandaram-nos arrumar os copos num armário. e nunca mais os usámos. enfim. quem pode, pode. e é por isso que por muito fixes que sejam os patrões vai sempre haver empregados a falar mal deles enquanto se preparam para o trabalho e bebem mais um cafézinho. oferta do patrão.

5 comentários:

spritof disse...

Muito bom, este artigo (como costume).
Parabéns!

Carlos Porto disse...

e, depois disto... foste despedida.

birger disse...

What I really love about your blog, aside from being well written and very funny), is that its all (for the most part) true.

And, us 'patrões´ think that you are a great person, pleasant to be around, hard working, honest, etc. We consider you part of the family.

stay well.

bj
Birger & Gabriel

Alexandre Bernardo disse...

Que despedida Carlos?
Ela está é à espera de ser promovida.

Só não percebi o "Finalmente" os Patrões. Finalmente porquê?

Ana Sá disse...

:) Gostei, antes de mais nada os patrões devem ter empatia connosco! "Walk on our shoes..."